Primeiro pensava que este tipo de pensamentos só me assaltavam a mim…
Depois percebi que não.
De seguida pensei que só me assaltariam da primeira vez… as primeiras vezes são sempre piores…
Pelos vistos também não.
“O coração apertou-se-me. Não muito leve. O céu estava limpo, a luz transparente e, contudo, tenaz, insistente, sentia desprender-se à minha volta um cheiro insípido, como se sob a sua película lustrosa todos estes instantes estivessem apodrecidos no coração: era o cheiro insípido da resignação.
Hélène soergueu-se.
— Achas absurdo termos filhos, não é?
Olhei-a surpreendido.
— Tens vontade de os ter?
— Sim e não. Pergunto-me se isso não enriquecerá esta vida.
Sorri.
— E não querias perder uma ocasião de enriquecer?
— Não te rias. O que é que tu achas, tu?
— Antigamente, achava insensato lançar alguém no mundo.
Isso não te assusta?
Ela hesitou.
— Não. Mesmo que um homem seja infeliz, poderemos realmente dizer que seria melhor ele não ter existido?
— De facto — disse eu. — Mas se esse homem espalhar o mal à sua volta?
— E se espalhar o bem?
— Oh, tens razão! Fazer nascer uma criança, impedi-la de nascer... é igualmente absurdo. É indiferente.
— Mas quando se deseja uma coisa já não é indiferente. Então já não é absurdo fazê-la, pois não?
— Talvez o meu erro seja não saber ainda desejar nada.
Ela riu-se:
— O teu erro? Não acredito que tenhas assim tantos erros!
Eu ia remando e o barco deslizava sem deixar rasto, muito calmo. Não ser nada senão esta espuma branca que sobe e se perde na toalha igual da água. Era preciso matar esta voz. A voz dizia: eu queria ser esta espuma. E ela disse: era preciso matar esta voz. A espuma nascia e morria sem voz.
Do alto de uma prancha de mergulho, um corpo moreno saltou para o rio; pares enamorados caminhavam pela margem com passos miúdos. Um domingo de paz. As horas fugiam-nos por entre os dedos. Longe dali, havia horas que se depositavam no solo, misturadas ao ferro fundido e ao aço. Todos os dias saíam das fábricas alemãs novos canhões, novos tanques."
Simone de Beauvoir, “O Sangue dos Outros”, Colecção Mil Folhas, nº 38, Público, 2003.
A segunda vez ainda está a ser pior que a primeira.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
PROCISSÃO
Graças a Deus que proibiram os foguetes! Acho que até nutro alguma simpatia pelos incendiários e pirómanos quando penso nisso. Não fora eles e a tragédia que causam todos os verões, ainda hoje teríamos de suportar as intermináveis alvoradas de pólvora feitas, precisamente às 8 da manhã.
O pesadelo começa com o silvo característico da pólvora em ignição, bem apertadinha num cartucho de cartão prensado. É o momento em que abrimos abruptamente os olhos e olhamos aflitos para o tecto branco ou não. Antes mesmo de sentirmos o sabor a pauta de música na boca, já o estrondo ecoa no ar, imitando o metralhar de uma metralhadora engasgada. Aqui iniciamos o processo da tomada de consciência: estamos na aldeia, em casa da avó ou da tia ou do primo ou sei lá quem do amigo que nos convidou, e é o dia da festa. Para ajudar à festa (a outra, a metafórica e não a da aldeia), os cães assustados que trocaram a liberdade por uns restos de comida (ou são escravizados pela espécie superior que suportam o seu cheiro e barulho em troca de alguma protecção para as cada vez mais inúteis capoeiras) começam a latir desalmadamente. As crianças também iniciam a berraria. Bastam alguns segundos para que o contágio seja total e todas as crianças das redondezas, dos 0 aos 6 anos, chorem almadamente uma vez que já a têm (a alma).
Seguem-se mais silvos seguidos da metralha. A partir de certa altura começamos a rezar para que, no meio do latido-choro-berro-metralha, consigamos escutar a falta do silvo. Sem silvo não há foguetes. Ás vezes parece que não vai haver mais nenhum foguete… deixámos de ouvir o silvo… mas entretanto lá aparece ele… que merda! Deve ter sido o fogueteiro que precisou de dar uma passa na beata para lhe avivar a ponta. Provavelmente já perdeu uma das mãos num foguete mal aparelhado. A dinamite saltou para fora do papelão atado com corda de sapateiro e roubou-lha. Às vezes também rouba um olho ou três dedos.
Bem feita!
Tudo acaba com os morteiros, uma espécie de foguetes iguais aos outros só que, em vez de se desmultiplicar em pequenas explosões, produzem uma única, forte e intensa, que perdura durante mais tempo nos tímpanos e ecoa se a aldeia tiver a companhia da serra. Tal e qual um peido.
Sem comer chegamos ao café. Os da terra bebem martinis, favaios ou brancos traçados. Nós, os lisboetas, engolimos com dificuldade a bica queimada.
É engraçado assistir à procissão.
Antes podemos participar na missa. Podemos porque realmente é assim. Os homens têm essa permissão. Podem ficar à porta da igreja, a conversar sobre a bola, os campos ou os outros. Uns fumam. Todos vão à vez ao café beber martinis, favaios ou brancos traçados. À hora da missa já há que arrisque uma mini. Dentro de portas estão todas as mulheres que não têm de ficar em casa a preparar o almoço e os homens a quem a vida castigou de maneira cruel. As crianças, mordomas e irmandade também lá estão, orgulhosas dos seus vestidos novos as primeiras e amaldiçoando as bebidas d’ontem os últimos. Os emigrantes, sejam eles da Suíça ou de Lisboa, estão lá todos. Já me esquecia do Padre e da Filarmónica.
Quando termina a consagração, inicia-se a procissão. À frente vai a irmandade que é responsável pela cruz e pelas velas.
Antes do padre, ainda há tempo para as ofrendas ou cabaças que não passam de tabuleiros de comida e bebida oferecidas pelas mordomas para leiloar em favor da festa. Estas têm o privilégio de escolher quem carrega as ofrendas e os andores, já que cada uma foi responsável por enfeitar um dos santos que habita a igreja e que, na procissão, competem entre si em beleza e fartura de comida. Elas escolhem aqueles que os irão carregar pelas ruelas da aldeia enquanto acompanham, bem vestidas e penteadas, o fruto do seu labor nas semanas que antecederam o dia da festa.
Depois novamente a irmandade que leva mais velas e figuras religiosas e depois é o padre e o presidente da junta, casa do povo ou associação de beneficência da aldeia. Estes têm direito a protecção suplementar, sob a forma de um palio erguido por 4 ou 6 voluntários que honrosamente se desculpam pela inexperiência, cadência, falta de jeito e tropeções que vão infligindo uns aos outros.
A filarmónica, que entoa tristes músicas de marcha lenta com os seus reluzentes instrumentos e pautas brancas seguras com molas de roupa, segue em passo certo anunciando a procissão que termina. 
No final vai o povo.
Não é aqui que entramos nós, os lisboetas. Nós entramos antes. Se não temos cuidado somos imediatamente intimados a desempenhar tão inusitada mas decisiva tarefa, fruto da desistência de algum previamente eleito que se baldou à última da hora. As bebedeiras têm destas coisas: fazem com que alguns não oiçam os foguetes e ignorem os irados despertadores das mães, avós ou tias que se cansam de os tentar abandonar o processo de destilação.
Somos depois fotografados por máquinas de filmar modernas e convidados a beber um martini, favaios ou branquinho traçado no café da aldeia, enquanto as pétalas, lançadas pelas viúvas que enfeitaram as varandas com colchas de linho tricotadas à mão, nos vão caindo dos cabelos empastados de gel.
Ainda sem comer, bebemos porque hoje é dia de festa!
O pesadelo começa com o silvo característico da pólvora em ignição, bem apertadinha num cartucho de cartão prensado. É o momento em que abrimos abruptamente os olhos e olhamos aflitos para o tecto branco ou não. Antes mesmo de sentirmos o sabor a pauta de música na boca, já o estrondo ecoa no ar, imitando o metralhar de uma metralhadora engasgada. Aqui iniciamos o processo da tomada de consciência: estamos na aldeia, em casa da avó ou da tia ou do primo ou sei lá quem do amigo que nos convidou, e é o dia da festa. Para ajudar à festa (a outra, a metafórica e não a da aldeia), os cães assustados que trocaram a liberdade por uns restos de comida (ou são escravizados pela espécie superior que suportam o seu cheiro e barulho em troca de alguma protecção para as cada vez mais inúteis capoeiras) começam a latir desalmadamente. As crianças também iniciam a berraria. Bastam alguns segundos para que o contágio seja total e todas as crianças das redondezas, dos 0 aos 6 anos, chorem almadamente uma vez que já a têm (a alma).
Seguem-se mais silvos seguidos da metralha. A partir de certa altura começamos a rezar para que, no meio do latido-choro-berro-metralha, consigamos escutar a falta do silvo. Sem silvo não há foguetes. Ás vezes parece que não vai haver mais nenhum foguete… deixámos de ouvir o silvo… mas entretanto lá aparece ele… que merda! Deve ter sido o fogueteiro que precisou de dar uma passa na beata para lhe avivar a ponta. Provavelmente já perdeu uma das mãos num foguete mal aparelhado. A dinamite saltou para fora do papelão atado com corda de sapateiro e roubou-lha. Às vezes também rouba um olho ou três dedos.
Bem feita!
Tudo acaba com os morteiros, uma espécie de foguetes iguais aos outros só que, em vez de se desmultiplicar em pequenas explosões, produzem uma única, forte e intensa, que perdura durante mais tempo nos tímpanos e ecoa se a aldeia tiver a companhia da serra. Tal e qual um peido.
Sem comer chegamos ao café. Os da terra bebem martinis, favaios ou brancos traçados. Nós, os lisboetas, engolimos com dificuldade a bica queimada.
É engraçado assistir à procissão.
Antes podemos participar na missa. Podemos porque realmente é assim. Os homens têm essa permissão. Podem ficar à porta da igreja, a conversar sobre a bola, os campos ou os outros. Uns fumam. Todos vão à vez ao café beber martinis, favaios ou brancos traçados. À hora da missa já há que arrisque uma mini. Dentro de portas estão todas as mulheres que não têm de ficar em casa a preparar o almoço e os homens a quem a vida castigou de maneira cruel. As crianças, mordomas e irmandade também lá estão, orgulhosas dos seus vestidos novos as primeiras e amaldiçoando as bebidas d’ontem os últimos. Os emigrantes, sejam eles da Suíça ou de Lisboa, estão lá todos. Já me esquecia do Padre e da Filarmónica.
Quando termina a consagração, inicia-se a procissão. À frente vai a irmandade que é responsável pela cruz e pelas velas.
No final vai o povo.
Não é aqui que entramos nós, os lisboetas. Nós entramos antes. Se não temos cuidado somos imediatamente intimados a desempenhar tão inusitada mas decisiva tarefa, fruto da desistência de algum previamente eleito que se baldou à última da hora. As bebedeiras têm destas coisas: fazem com que alguns não oiçam os foguetes e ignorem os irados despertadores das mães, avós ou tias que se cansam de os tentar abandonar o processo de destilação.
Somos depois fotografados por máquinas de filmar modernas e convidados a beber um martini, favaios ou branquinho traçado no café da aldeia, enquanto as pétalas, lançadas pelas viúvas que enfeitaram as varandas com colchas de linho tricotadas à mão, nos vão caindo dos cabelos empastados de gel.
Ainda sem comer, bebemos porque hoje é dia de festa!
terça-feira, 18 de setembro de 2007
A PRINCESA DO ALVA
Sentada nas margens do rio que um dia irá herdar, molha os pés com medo de pisar algum girino acabado de nascer. Apesar de muito abundantes no final do verão, são difíceis de encontrar. Normalmente vêm das ribeiras que se desfazem no leito limpo mas escuro por causa do fino húmus que se desfaz nos seus muitos buracos, casa das cabras cegas, trutas, enguias e cobras d’água. Gostam de se esconder por entre os seixos pretos, roliços e espalmados. Quando começam a ter patas, adora vê-los indecisos sobre o seu papel na natureza, também ela híbrida. Ora saltam, ora nadam, sem saberem lá muito bem o que fazer com tão estranhos apêndices.
É uma princesa branca e bela, como o são todas.
No Inverno fecha-se em casa, com medo do nevoeiro que sobe do rio. Principalmente de noite. O dia, quando vem despido e sem lágrimas, é aproveitado para namoriscar as videiras, o milho, os pinheiros e os castanheiros que fazem companhia às oliveiras. De vez em quando também visita as couves, os nabos e as batatas. Quando lhe apetece vai buscar umas cavacas só pelo prazer de as atirar à lareira.
É uma princesa branca e muito bela. Tem uma pele sedosa como teriam as flores se tivessem pele.
Vou visitar a princesa do alva menos vezes do que gostaria. Talvez umas três vezes por ano, não mais. Quando era pequeno ficava na sua companhia durante os três meses de Verão. Adorava ouvir as suas histórias. De quando em vez contava-me um ou outro dos segredos do campo. Nunca falava dos mistérios do rio. E esses eram imensos.
É uma princesa amada pelo seu povo, como o são quase todas.
Fez há pouco tempo 84 anos e o seu nome é Esperança.
É uma princesa branca e bela, como o são todas.
No Inverno fecha-se em casa, com medo do nevoeiro que sobe do rio. Principalmente de noite. O dia, quando vem despido e sem lágrimas, é aproveitado para namoriscar as videiras, o milho, os pinheiros e os castanheiros que fazem companhia às oliveiras. De vez em quando também visita as couves, os nabos e as batatas. Quando lhe apetece vai buscar umas cavacas só pelo prazer de as atirar à lareira.
É uma princesa branca e muito bela. Tem uma pele sedosa como teriam as flores se tivessem pele.
Vou visitar a princesa do alva menos vezes do que gostaria. Talvez umas três vezes por ano, não mais. Quando era pequeno ficava na sua companhia durante os três meses de Verão. Adorava ouvir as suas histórias. De quando em vez contava-me um ou outro dos segredos do campo. Nunca falava dos mistérios do rio. E esses eram imensos.
É uma princesa amada pelo seu povo, como o são quase todas.
Fez há pouco tempo 84 anos e o seu nome é Esperança.
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Armia Zbawienia
Pouco passava das 10:30 da manhã quando, marchando em falanges imponentes, num brado deslumbrante, foram em socorro do Exército de Salvação sedeado em Varsóvia, quais aliados que entram num campo de batalha de uma cidade destruída pela guerra.
Varsóvia foi praticamente toda destruída pela IIª Guerra Mundial, fruto da decisão de Hitler em aniquilar o símbolo da resistência à ocupação germânica. A 1 de Agosto de 1944 a resistência polaca decide passar à luta armada e revolta-se. É a então denominada “Insurgência”, na qual mais de 18 mil resistentes organizados em verdadeiros corpos de exército, bem como cerca de 180 mil civis, são mortos após 2 meses de intensos combates na capital da ocupada polónia, com o exército vermelho a assistir nas margens do rio Vístula.
Com a capitulação dos insurgentes, capitula também a Polónia. Foi depois ocupada pelos soviéticos até à queda do muro de Berlim de 1989. Bem antes da entrada dos exércitos comandados por Estaline, Hitler teve tempo de se vingar, ordenando que não ficasse pedra sobre pedra na cidade ferida pelos constantes bombardeamentos aquando da revolta. Foi um plano executado á letra pelas SS que demoliu sistematicamente todas as principais artérias, bairros e edifícios, deportando habitantes e perseguindo colaboradores. Varsóvia ficou reduzida a 10% do que era antes do início da Guerra.
Assim sendo, não é de estranhar que toda a cidade seja um monumento aos resistentes (ou aos insurgentes). Andando pelos bairros da cidade, sejam eles quais forem, é impossível não deparar com placas, de bronze enegrecido, em edifícios de estilo comunista comemorando a morte de um ou vários heróis que pereceram estoicamente às mãos de um exército ocupante. Algumas são adornadas com fitas vermelhas e brancas, flores da época e velas meio derretidas. Os edifícios que sobreviveram ostentam, orgulhosos, os tijolos vermelhos com marcas de balas e as inevitáveis placas.
De vez em quando encontramos uma praça onde estátuas de ferro negro representam a luta, com homens e mulheres de uniforme alemão, carregando ora os filhos ora as armas, a entrarem em esgotos, a saltarem ruínas, a dispararem para inimigos imaginários. Uma vez mais as fitas bicolores e as velas semiapagadas tornam o cenário um pouco mais assustador do que já era. Os Polacos levam aquilo a sério.

Sem querer entramos no gueto. Aqui os alemães prenderam todos os judeus de Varsóvia até os conseguirem deportar para os vários campos de extermínio. Há museus ao ar livre que mais não são do que restos de arame farpado, muros esburacados e casamatas destruídas por toda a parte.
Os reforços chegaram num dia de chuva. Para lá chegarem ouviram rumores de que o distrito de Praga Północ, bem perto do Jardim Zoológico, era um dos mais problemáticos da cidade. Segundo lhes diziam os habitantes de Cracóvia e de Zakopane, havia um assassínio por dia, acompanhado por vários assaltos à mão armada. Sem se intimidarem, marcharam orgulhosamente até se juntarem ao Armia Zbawienia.



Constituído por apenas 3 membros, fundaram a sua Igreja Evangélica há apenas 1 ano. Ocupam os seus dias jogando futebol, rezando e idealizando brincadeiras com jovens e crianças do mais desfavorecido dos bairros de Varsóvia.

É uma batalha que ainda está longe da capitulação.
Varsóvia foi praticamente toda destruída pela IIª Guerra Mundial, fruto da decisão de Hitler em aniquilar o símbolo da resistência à ocupação germânica. A 1 de Agosto de 1944 a resistência polaca decide passar à luta armada e revolta-se. É a então denominada “Insurgência”, na qual mais de 18 mil resistentes organizados em verdadeiros corpos de exército, bem como cerca de 180 mil civis, são mortos após 2 meses de intensos combates na capital da ocupada polónia, com o exército vermelho a assistir nas margens do rio Vístula.
Com a capitulação dos insurgentes, capitula também a Polónia. Foi depois ocupada pelos soviéticos até à queda do muro de Berlim de 1989. Bem antes da entrada dos exércitos comandados por Estaline, Hitler teve tempo de se vingar, ordenando que não ficasse pedra sobre pedra na cidade ferida pelos constantes bombardeamentos aquando da revolta. Foi um plano executado á letra pelas SS que demoliu sistematicamente todas as principais artérias, bairros e edifícios, deportando habitantes e perseguindo colaboradores. Varsóvia ficou reduzida a 10% do que era antes do início da Guerra.
Assim sendo, não é de estranhar que toda a cidade seja um monumento aos resistentes (ou aos insurgentes). Andando pelos bairros da cidade, sejam eles quais forem, é impossível não deparar com placas, de bronze enegrecido, em edifícios de estilo comunista comemorando a morte de um ou vários heróis que pereceram estoicamente às mãos de um exército ocupante. Algumas são adornadas com fitas vermelhas e brancas, flores da época e velas meio derretidas. Os edifícios que sobreviveram ostentam, orgulhosos, os tijolos vermelhos com marcas de balas e as inevitáveis placas.
De vez em quando encontramos uma praça onde estátuas de ferro negro representam a luta, com homens e mulheres de uniforme alemão, carregando ora os filhos ora as armas, a entrarem em esgotos, a saltarem ruínas, a dispararem para inimigos imaginários. Uma vez mais as fitas bicolores e as velas semiapagadas tornam o cenário um pouco mais assustador do que já era. Os Polacos levam aquilo a sério.
Sem querer entramos no gueto. Aqui os alemães prenderam todos os judeus de Varsóvia até os conseguirem deportar para os vários campos de extermínio. Há museus ao ar livre que mais não são do que restos de arame farpado, muros esburacados e casamatas destruídas por toda a parte.
Os reforços chegaram num dia de chuva. Para lá chegarem ouviram rumores de que o distrito de Praga Północ, bem perto do Jardim Zoológico, era um dos mais problemáticos da cidade. Segundo lhes diziam os habitantes de Cracóvia e de Zakopane, havia um assassínio por dia, acompanhado por vários assaltos à mão armada. Sem se intimidarem, marcharam orgulhosamente até se juntarem ao Armia Zbawienia.
Constituído por apenas 3 membros, fundaram a sua Igreja Evangélica há apenas 1 ano. Ocupam os seus dias jogando futebol, rezando e idealizando brincadeiras com jovens e crianças do mais desfavorecido dos bairros de Varsóvia.
É uma batalha que ainda está longe da capitulação.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Chata pod Rysmi
À distância de meia hora da fronteira polaca (sim, porque em montanha as distâncias medem-se em tempo) e situada a 2250m de altitude, encontra-se o abrigo de montanha / pensão Chata pod Rysmi.

A fronteira é a do sul.

O território é o dos Altos Tatras, espécie de Alpes Polacos e eslovacos, parque natural de qualidade invejável. Não só pelo cuidado nele posto como pela própria natureza. Ainda lá vivem Ursos em estado selvagem, que namoram com águias reais e cabras montesas em alturas de menor frio. Com a neve chegam os esquiadores e os Ursos escondem-se nas grutas para dormir, fingindo hibernar para não serem chateados.
Embora situado em território Eslovaco, não se pode dizer que este abrigo tenha uma nacionalidade definida. Para além de podermos trocar vários tipos de notas e moedas (Euros, zlotis e coroas, pelo menos) por impagáveis cervejas de meio litro (pivos) e reconfortantes cafés (nada de expressos! Ou turco ou instantâneo!), por lá sente-se uma espécie de fraternidade internacional.
Enquanto recobrávamos da esgotante subida ao ponto mais alto a Polónia (Monte Rysy, 2499m de altitude, sempre defendidos pela chuva, guardados pelo frio e camuflados de nevoeiro – diariamente a partir das 11:00 e até às 17:00), sentados em mesas de forte madeira e bancos corridos e tentando não nos engasgarmos com uma refeição quente ao fim de 8 horas de inclinações
que obrigam à utilização de correntes para a conquista do bicho, somos presenteados com escaladores e hikers oriundos da Suécia, Inglaterra, Checos e, claro está, Eslovacos e Polacos. Também lá estavam uns quantos alpinistas que treinavam para uma subida a um cume qualquer de nome nepalês, mas não consegui perceber a nacionalidade. Também há desvantagens em falarmos a língua de Shakespeare com sotaques macarrónicos. Pelo menos se nos sentamos a duas mesas de distância. Mesmo que estas sejam corridas.

Não há electricidade nem água potável. A noite é conquistada por esquecidos candeeiros a petróleo e lanternas frontais. A água está á disposição em duas tinas de alumínio, logo à entrada. Cada um serve-se numa caneca e leva-a lá para fora para o que tiver de fazer. Eu lavei muitas vezes as mãos e uma vez os dentes. Também não há caixotes do lixo. O que cada um faz, deve levá-lo de volta.
Ainda assim, aquilo que mais chama a atenção nesta desolada região de montanha, onde o cinzento das pedras rejeita o azul do céu e o branco das nuvens se dilui nos restos de gelo que o sol não consegue beber, são as casas de banho. Em tão espartanas condições, seria natural que aquelas também o fossem. Puro engano. A cerca de 100 metros da Casa Abrigo, percorrendo o trilho de cerca de hora e meia em direcção à primeira povoação eslovaca, encontramos umas latrinas profusamente decoradas. Pintura em tons quentes, obra de arte com influências dos movimentos de libertação da década de 60, facilmente reconhecemos os símbolos da paz, do prazer e do sexo livre. A cerca de 10 metros da dita impõe-se um símbolo fálico em madeira esculpido e impecavelmente ornamentado, convidando os mais aflitos a uma breve antevisão do alívio prometido e os mais curiosos a poses para fotografias digitais. Para quem tem mais tempo, estão disponíveis dois bancos de jardim. Isto porque a casas de banho são só para um. Os outros que esperem.
A espera só custa porque o que se vê lá de dentro é de outro mundo. Toda a frente do pequeno cubículo de madeira é de vidro feita. Uma enorme janela de vidro duplo para um vale encantado. Uma sanita rústica que dá para um buraco. Um buraco que dá para o mesmo vale. Sente-se um ventinho agradável no rabo e um prazer enorme na vista. Fiquei lá muito mais tempo do que precisava. E do que devia também, pois o grande pénis já tinha perdido o carácter de novidade e os bancos de jardim teimavam em ser poucos para tanta afluência. Não quis saber e voltei a fazer mais um pouco de esforço para justificar o meu egoísmo em tão imprevisível lugar.
A fronteira é a do sul.
O território é o dos Altos Tatras, espécie de Alpes Polacos e eslovacos, parque natural de qualidade invejável. Não só pelo cuidado nele posto como pela própria natureza. Ainda lá vivem Ursos em estado selvagem, que namoram com águias reais e cabras montesas em alturas de menor frio. Com a neve chegam os esquiadores e os Ursos escondem-se nas grutas para dormir, fingindo hibernar para não serem chateados.
Embora situado em território Eslovaco, não se pode dizer que este abrigo tenha uma nacionalidade definida. Para além de podermos trocar vários tipos de notas e moedas (Euros, zlotis e coroas, pelo menos) por impagáveis cervejas de meio litro (pivos) e reconfortantes cafés (nada de expressos! Ou turco ou instantâneo!), por lá sente-se uma espécie de fraternidade internacional.
Enquanto recobrávamos da esgotante subida ao ponto mais alto a Polónia (Monte Rysy, 2499m de altitude, sempre defendidos pela chuva, guardados pelo frio e camuflados de nevoeiro – diariamente a partir das 11:00 e até às 17:00), sentados em mesas de forte madeira e bancos corridos e tentando não nos engasgarmos com uma refeição quente ao fim de 8 horas de inclinações
que obrigam à utilização de correntes para a conquista do bicho, somos presenteados com escaladores e hikers oriundos da Suécia, Inglaterra, Checos e, claro está, Eslovacos e Polacos. Também lá estavam uns quantos alpinistas que treinavam para uma subida a um cume qualquer de nome nepalês, mas não consegui perceber a nacionalidade. Também há desvantagens em falarmos a língua de Shakespeare com sotaques macarrónicos. Pelo menos se nos sentamos a duas mesas de distância. Mesmo que estas sejam corridas.

Não há electricidade nem água potável. A noite é conquistada por esquecidos candeeiros a petróleo e lanternas frontais. A água está á disposição em duas tinas de alumínio, logo à entrada. Cada um serve-se numa caneca e leva-a lá para fora para o que tiver de fazer. Eu lavei muitas vezes as mãos e uma vez os dentes. Também não há caixotes do lixo. O que cada um faz, deve levá-lo de volta.
Ainda assim, aquilo que mais chama a atenção nesta desolada região de montanha, onde o cinzento das pedras rejeita o azul do céu e o branco das nuvens se dilui nos restos de gelo que o sol não consegue beber, são as casas de banho. Em tão espartanas condições, seria natural que aquelas também o fossem. Puro engano. A cerca de 100 metros da Casa Abrigo, percorrendo o trilho de cerca de hora e meia em direcção à primeira povoação eslovaca, encontramos umas latrinas profusamente decoradas. Pintura em tons quentes, obra de arte com influências dos movimentos de libertação da década de 60, facilmente reconhecemos os símbolos da paz, do prazer e do sexo livre. A cerca de 10 metros da dita impõe-se um símbolo fálico em madeira esculpido e impecavelmente ornamentado, convidando os mais aflitos a uma breve antevisão do alívio prometido e os mais curiosos a poses para fotografias digitais. Para quem tem mais tempo, estão disponíveis dois bancos de jardim. Isto porque a casas de banho são só para um. Os outros que esperem.
A espera só custa porque o que se vê lá de dentro é de outro mundo. Toda a frente do pequeno cubículo de madeira é de vidro feita. Uma enorme janela de vidro duplo para um vale encantado. Uma sanita rústica que dá para um buraco. Um buraco que dá para o mesmo vale. Sente-se um ventinho agradável no rabo e um prazer enorme na vista. Fiquei lá muito mais tempo do que precisava. E do que devia também, pois o grande pénis já tinha perdido o carácter de novidade e os bancos de jardim teimavam em ser poucos para tanta afluência. Não quis saber e voltei a fazer mais um pouco de esforço para justificar o meu egoísmo em tão imprevisível lugar.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Oświęcim
Pequena cidade a cerca de 65 Km a Oeste de Cracóvia, pouco tem de interessante para além da estação de comboio. Faz lembrar uma daquelas cidades americanas escondidas no deserto do Texas, com algumas casas de dois andares que cresceram à espreita da única estrada alcatroada que atravessa a região. Neste caso a estrada é composta de duas linhas de ferro, em vez do alcatrão derretido pelo sol.

Em 1940 Oświęcim foi objecto de estudos geológicos. Os alemães recém entrados na Polónia analisaram a capacidade de drenagem das vastas planícies que sustentavam o cultivo de cereais. A grande capacidade de drenagem aliada ao facto de o terreno ser plano agradava-lhes. Principalmente porque nesta pequena localidade se situava um nó ferroviário de alguma importância. Central e com grande capacidade de movimentação de transportes, tanto de comboios como de carros, era o local ideal para a localização de um novo pólo industrial. Esse pólo foi desenvolvido o quanto antes. Lá se instalaram fábricas de borracha sintética e de combustível, como a Buna-Werke, bem como, com o decorrer da segunda guerra mundial, toda uma série de fábricas relacionadas com o esforço de guerra alemão.

Provavelmente nunca ninguém ouviria falar de Oświęcim não fora o facto de lá se ter instalado a maior de todas as fábricas, ela sim imprescindível ao sucesso de todas as outras…



… e se muito poucos escutaram este nome foi porque os alemães o mudaram logo após a ocupação. Oświęcim passou a figurar nos mapas de geografia como Auschwitz.

A entrada é gratuita (como só o poderia ser) e é visitado cerca de 250.000 pessoas anualmente: Americanos que contemplam a arquitectura e as madeiras dos telhados que resguardam as casernas abandonadas pelo exército polaco ainda antes da eclosão da guerra,


grupos de jovens em excursões escolares, famílias que aproveitam o dia para saírem de casa, peregrinações de judeus que ostentam a bandeira de Israel e rezam baixinho cânticos que ensurdecem as nossas almas. Cá fora há amplos jardins que convidam a um pique-nique e vários parques de estacionamento para autocarros autopluma com ar condicionado.

Por 2 zlotis e meio compramos o guia do museu património da humanidade e pela mesma quantia assistimos ao filme de 30 minutos que faz o necessário enquadramento. Ao todo gastamos 1 euro e meio (se não contarmos com o zloti e meio que gastamos nas imaculadas casas de banho guardadas por circunspectas, mas nem por isso antipáticas, senhoras de semblante carregado). Há minibuses que nos levam, também gratuitamente, em silêncio durante 3 km até Birkenau. Também nos trazem de volta. Ainda bem.


Nós não gastámos os 210 zlotis da visita guiada. Ainda mal…
Em 1940 Oświęcim foi objecto de estudos geológicos. Os alemães recém entrados na Polónia analisaram a capacidade de drenagem das vastas planícies que sustentavam o cultivo de cereais. A grande capacidade de drenagem aliada ao facto de o terreno ser plano agradava-lhes. Principalmente porque nesta pequena localidade se situava um nó ferroviário de alguma importância. Central e com grande capacidade de movimentação de transportes, tanto de comboios como de carros, era o local ideal para a localização de um novo pólo industrial. Esse pólo foi desenvolvido o quanto antes. Lá se instalaram fábricas de borracha sintética e de combustível, como a Buna-Werke, bem como, com o decorrer da segunda guerra mundial, toda uma série de fábricas relacionadas com o esforço de guerra alemão.
Provavelmente nunca ninguém ouviria falar de Oświęcim não fora o facto de lá se ter instalado a maior de todas as fábricas, ela sim imprescindível ao sucesso de todas as outras…
… e se muito poucos escutaram este nome foi porque os alemães o mudaram logo após a ocupação. Oświęcim passou a figurar nos mapas de geografia como Auschwitz.
A entrada é gratuita (como só o poderia ser) e é visitado cerca de 250.000 pessoas anualmente: Americanos que contemplam a arquitectura e as madeiras dos telhados que resguardam as casernas abandonadas pelo exército polaco ainda antes da eclosão da guerra,
grupos de jovens em excursões escolares, famílias que aproveitam o dia para saírem de casa, peregrinações de judeus que ostentam a bandeira de Israel e rezam baixinho cânticos que ensurdecem as nossas almas. Cá fora há amplos jardins que convidam a um pique-nique e vários parques de estacionamento para autocarros autopluma com ar condicionado.
Por 2 zlotis e meio compramos o guia do museu património da humanidade e pela mesma quantia assistimos ao filme de 30 minutos que faz o necessário enquadramento. Ao todo gastamos 1 euro e meio (se não contarmos com o zloti e meio que gastamos nas imaculadas casas de banho guardadas por circunspectas, mas nem por isso antipáticas, senhoras de semblante carregado). Há minibuses que nos levam, também gratuitamente, em silêncio durante 3 km até Birkenau. Também nos trazem de volta. Ainda bem.
Nós não gastámos os 210 zlotis da visita guiada. Ainda mal…
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
1 de Agosto
É amanha dia 1º de Agosto
E tudo em mim é um fogo posto
Sacola ás costas, cantante na mão
Enterro os pés no calor do chão
É tanto o sol pelo caminho
Que vendo um, não me sinto sozinho
Todos os anos, em praias diferentes
Se buscam corpos sedosos e quentes
Adoro ver a praia dourada
O estranho brilho da areia molhada
Mergulho verde nas ondas do mar
Procuro o fundo p’ra lhe tocar
Estendido ao sol, sem nada dizer
Sorriso aberto de puro prazer
Desde a puberdade que temos a infantil tradição de ligar um ao outro a cantar esta canção dos Xutos. Ora sou eu que ligo, ora é o João. Por vezes um esquece-se, mas o outro lembra-se sempre. Desta vez tenho a certeza de que o João se vai esquecer, fruto da nova categoria social que adquiriu à cerca de um mês.
Desde então, o 1º de Agosto é para mim um dia diferente… especial. Para além de marcar o verdadeiro início das férias, transporta-me para os abafadinhos perto da escola secundária e para os melos atrás do pavilhão, para os cadernos enrolados no bolso de trás das calças e para as botas da tropa e t-shirt manchada de lixívia no pico do verão.
Mas este ano o 1º de Agosto também é diferente e especial por outro motivo. O escutismo faz 100 anos.
Nem sempre bem utilizado, nem sempre bem aplicado, provavelmente com razões obscuras na sua nascença… o facto é que se impôs e praticamente não conseguimos imaginar o nosso mundo sem ele. Parece que sempre existiu alguma espécie de organização juvenil com ideais engraçados e que serviu para modelar alguns dos mais duros e íntegros seres humanos que conhecemos. “Claro que Vasco da Gama foi escuteiro!” responderá qualquer Explorador enquanto suja as mãos na vã tentativa de fazer um nó de escota.
O que é certo é que hoje faz 100 anos que o General Inglês Robert Stephenson Smith Baden Powell foi acampar com vinte de rapazes para a ilha de Brownsea, fundeada no Canal da mancha.
Daqui a nada, perto das 8 da manhã, não estranhe se um estranho estranhamente se levantar e começar a gritar bem alto umas frases esquisitas. Provavelmente é um escuteiro a fazer a renovação da sua promessa, em conjunto com cerca de 28 milhões de escuteiros por este mundo fora.
Eu, como sou diferente, vou ficar a dormir que dia 2 vou para a Polónia, comemorar, à minha maneira, o dia 1 de Agosto.
E tudo em mim é um fogo posto
Sacola ás costas, cantante na mão
Enterro os pés no calor do chão
É tanto o sol pelo caminho
Que vendo um, não me sinto sozinho
Todos os anos, em praias diferentes
Se buscam corpos sedosos e quentes
Adoro ver a praia dourada
O estranho brilho da areia molhada
Mergulho verde nas ondas do mar
Procuro o fundo p’ra lhe tocar
Estendido ao sol, sem nada dizer
Sorriso aberto de puro prazer
Desde a puberdade que temos a infantil tradição de ligar um ao outro a cantar esta canção dos Xutos. Ora sou eu que ligo, ora é o João. Por vezes um esquece-se, mas o outro lembra-se sempre. Desta vez tenho a certeza de que o João se vai esquecer, fruto da nova categoria social que adquiriu à cerca de um mês.
Desde então, o 1º de Agosto é para mim um dia diferente… especial. Para além de marcar o verdadeiro início das férias, transporta-me para os abafadinhos perto da escola secundária e para os melos atrás do pavilhão, para os cadernos enrolados no bolso de trás das calças e para as botas da tropa e t-shirt manchada de lixívia no pico do verão.
Mas este ano o 1º de Agosto também é diferente e especial por outro motivo. O escutismo faz 100 anos.
Nem sempre bem utilizado, nem sempre bem aplicado, provavelmente com razões obscuras na sua nascença… o facto é que se impôs e praticamente não conseguimos imaginar o nosso mundo sem ele. Parece que sempre existiu alguma espécie de organização juvenil com ideais engraçados e que serviu para modelar alguns dos mais duros e íntegros seres humanos que conhecemos. “Claro que Vasco da Gama foi escuteiro!” responderá qualquer Explorador enquanto suja as mãos na vã tentativa de fazer um nó de escota.
O que é certo é que hoje faz 100 anos que o General Inglês Robert Stephenson Smith Baden Powell foi acampar com vinte de rapazes para a ilha de Brownsea, fundeada no Canal da mancha.
Daqui a nada, perto das 8 da manhã, não estranhe se um estranho estranhamente se levantar e começar a gritar bem alto umas frases esquisitas. Provavelmente é um escuteiro a fazer a renovação da sua promessa, em conjunto com cerca de 28 milhões de escuteiros por este mundo fora.
Eu, como sou diferente, vou ficar a dormir que dia 2 vou para a Polónia, comemorar, à minha maneira, o dia 1 de Agosto.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Jogging
Quando a chuva abandona os céus, assustada pelos gritos de calor que a terra lhe lança ao inclinar perigosamente a sua cabeça em direcção ao Sol e deixando propositadamente os pés ao frio, como que para compensar o conforto de uns com o desconforto de outros, a nossa cidade muda de cor. De cor e não só. Também muda de atitude.
Eu, pelo menos, mudo.
Exemplo disso é a minha sádica vontade de calçar uns ténis, vestir uma T-shirt cinzenta e copiar os políticos modernos correndo pela manhã ou ao final da tarde enquanto o comum dos mortais me observa, no meio de uns quantos seguranças de óculos escuros e coisas esquisitas nas orelhas.
Obviamente não sou seguido pelos senhores musculados e de semblante carregado, com os penteados imaculadamente imaculados por um miraculoso gel, nem tão pouco sou capaz de correr logo pela manhã.
No entanto sou observado pelo comum dos mortais.
Ao chegar cruzo-me com os clientes de um Clube de Ténis, Ginásio, Squash , Body Combat e coisas afins, que saem dos seus carros de gama alta, enfeitados por permanentes fingidamente descuidadas (elas) e fatos propositadamente desengravatados minutos antes de entrarem em Clube de gente fina (eles). O olhar que me lançam não é propriamente piedoso. Antes um misto de reprovação e incompreensão.
Já em plena libertação de toxinas, cruzo-me com os caninos que aproveitam o final da tarde para passear os donos. Estes são mais perigosos. Nem sempre acondicionam os seus melhores amigos com as respectivas trelas e é normal que me observem com apreensão: “Se o raça do cão lhe dá uma dentada, estou em sarilhos!”, pelo que me olham quase sempre com medo. Pelo canto do olho, enquanto o outro canto segue os fiéis amigos.
Passo sempre por vários casais de namorados, sentados em bancos de madeira cuidada, quase sempre à sombra de olhares indiscretos. Mestres em visão periférica e com a adrenalina perto do limite, transformam os sinais de sexo explícito em implícito. Não resisto em reatar um atacador supostamente mal apertado na proximidade dos mais afoitos. O que é bom deve ser sofrido, certo?
Há um parque infantil no fundo do jardim, onde as energias normalmente já não são muitas e o esforço tem de ser bem doseado (é o início de uma subida lixada). Os risos das crianças, os pais cansados ou os avós babados observam-me de acordo com a curiosidade da respectiva idade. E com alguma compreensão, também. Á excepção dos primeiros todos estamos a fazer um frete. Pelo menos passados alguns minutos.
Também há os sem-abrigo. Esses mal olham para mim. Se não estivesse a correr, talvez me pedissem um cigarro ou umas moedas. Assim limitam-se a enrolar mais um Detroit ou a beber mais um gole de vinho para acompanhar a carcaça com manteiga, escondida no saco de plástico velho que faz barulho para esconder a solidão.
Claro que passo por compichas. Aqueles que, como eu, não conseguem resistir ao sádico apelo da translação terrestre. Há-os de todas as idades, raças e géneros. Há o indiano que corre sempre em calças de fato de treino, cantando os mesmos sons regurgitados pelos headphones da loja do pai que um dia irá ser sua; há o casal que não corre, apenas marcha seguindo a prescrição do médico dos pulmões ou do coração, apesar dos cerca de 40 anos que aparentam 50 que ainda não têm; há o velho gordo que mostra sempre um pouco do umbigo e encharcaria t-shirt mesmo se não corresse. Todos nos olhamos com simpatia, aproveitando para contar as voltas que cada um dos outros dá ao circuito. Depois há o “Pró”. Sempre com roupas a condizer, nunca sua e pára em todas as estações do circuito de manutenção para realizar os exercícios mais difíceis (os de cor castanha segundo o manual de instruções prontamente colocado antes de cada aparelho). Pelo menos quando alguém passa por ele.
Mas dos que eu mais gosto são os Ucranianos, Bielorussos e Romenos que costumam fazer-me companhia ao Domingo. Juntam-se no parque de merendas e enchem as mesas de garrafas de vodka de marcas esquisitas ou latas de cerveja do LIDL e comidas com molhos e cheiros desconhecidos. Dançam ao som dos carros mal estacionados de vidros abertos e portas escancaradas que teimam em reproduzir música pimba da terra deles. Outras vezes conversam sobre projectos de casas a construir nas mesmas terras, assentes em euros que custam a ganhar. Matam saudades, matam a fome, matam a sede. Matam porque não estão mortos.
Ao passar por eles sou agraciado com urros e palmas dos menos sóbrios. Homens e mulheres de cabelos louros aplaudem-me com sorrisos marcados por dentes de ouro, ao mesmo tempo que sou ultrapassado pelo reformado que faz do Parque José Gomes Ferreira mais do que um conjunto de árvores antes de chegar à Rotunda do Relógio.
Eu, pelo menos, mudo.
Exemplo disso é a minha sádica vontade de calçar uns ténis, vestir uma T-shirt cinzenta e copiar os políticos modernos correndo pela manhã ou ao final da tarde enquanto o comum dos mortais me observa, no meio de uns quantos seguranças de óculos escuros e coisas esquisitas nas orelhas.
Obviamente não sou seguido pelos senhores musculados e de semblante carregado, com os penteados imaculadamente imaculados por um miraculoso gel, nem tão pouco sou capaz de correr logo pela manhã.
No entanto sou observado pelo comum dos mortais.
Ao chegar cruzo-me com os clientes de um Clube de Ténis, Ginásio, Squash , Body Combat e coisas afins, que saem dos seus carros de gama alta, enfeitados por permanentes fingidamente descuidadas (elas) e fatos propositadamente desengravatados minutos antes de entrarem em Clube de gente fina (eles). O olhar que me lançam não é propriamente piedoso. Antes um misto de reprovação e incompreensão.
Já em plena libertação de toxinas, cruzo-me com os caninos que aproveitam o final da tarde para passear os donos. Estes são mais perigosos. Nem sempre acondicionam os seus melhores amigos com as respectivas trelas e é normal que me observem com apreensão: “Se o raça do cão lhe dá uma dentada, estou em sarilhos!”, pelo que me olham quase sempre com medo. Pelo canto do olho, enquanto o outro canto segue os fiéis amigos.
Passo sempre por vários casais de namorados, sentados em bancos de madeira cuidada, quase sempre à sombra de olhares indiscretos. Mestres em visão periférica e com a adrenalina perto do limite, transformam os sinais de sexo explícito em implícito. Não resisto em reatar um atacador supostamente mal apertado na proximidade dos mais afoitos. O que é bom deve ser sofrido, certo?
Há um parque infantil no fundo do jardim, onde as energias normalmente já não são muitas e o esforço tem de ser bem doseado (é o início de uma subida lixada). Os risos das crianças, os pais cansados ou os avós babados observam-me de acordo com a curiosidade da respectiva idade. E com alguma compreensão, também. Á excepção dos primeiros todos estamos a fazer um frete. Pelo menos passados alguns minutos.
Também há os sem-abrigo. Esses mal olham para mim. Se não estivesse a correr, talvez me pedissem um cigarro ou umas moedas. Assim limitam-se a enrolar mais um Detroit ou a beber mais um gole de vinho para acompanhar a carcaça com manteiga, escondida no saco de plástico velho que faz barulho para esconder a solidão.
Claro que passo por compichas. Aqueles que, como eu, não conseguem resistir ao sádico apelo da translação terrestre. Há-os de todas as idades, raças e géneros. Há o indiano que corre sempre em calças de fato de treino, cantando os mesmos sons regurgitados pelos headphones da loja do pai que um dia irá ser sua; há o casal que não corre, apenas marcha seguindo a prescrição do médico dos pulmões ou do coração, apesar dos cerca de 40 anos que aparentam 50 que ainda não têm; há o velho gordo que mostra sempre um pouco do umbigo e encharcaria t-shirt mesmo se não corresse. Todos nos olhamos com simpatia, aproveitando para contar as voltas que cada um dos outros dá ao circuito. Depois há o “Pró”. Sempre com roupas a condizer, nunca sua e pára em todas as estações do circuito de manutenção para realizar os exercícios mais difíceis (os de cor castanha segundo o manual de instruções prontamente colocado antes de cada aparelho). Pelo menos quando alguém passa por ele.
Mas dos que eu mais gosto são os Ucranianos, Bielorussos e Romenos que costumam fazer-me companhia ao Domingo. Juntam-se no parque de merendas e enchem as mesas de garrafas de vodka de marcas esquisitas ou latas de cerveja do LIDL e comidas com molhos e cheiros desconhecidos. Dançam ao som dos carros mal estacionados de vidros abertos e portas escancaradas que teimam em reproduzir música pimba da terra deles. Outras vezes conversam sobre projectos de casas a construir nas mesmas terras, assentes em euros que custam a ganhar. Matam saudades, matam a fome, matam a sede. Matam porque não estão mortos.
Ao passar por eles sou agraciado com urros e palmas dos menos sóbrios. Homens e mulheres de cabelos louros aplaudem-me com sorrisos marcados por dentes de ouro, ao mesmo tempo que sou ultrapassado pelo reformado que faz do Parque José Gomes Ferreira mais do que um conjunto de árvores antes de chegar à Rotunda do Relógio.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Quinta Tribuna
Tudo começou em Outubro, quando o Bártolo me telefonou, uma tarde. Era uma tarde como as outras. Estava num intervalo entre formações e escutei a sua sempre agradável voz. Contou-me que ia para a América. Tinha ganho uma bolsa de pós doutoramento e não conseguiria assegurar as aulas que, desde há 8 anos, leccionava no IADE. Perguntou-me se estava interessado. Eu disse que sim.
O Bártolo é uma referência dos tempos da faculdade. Tertúlias. Copos. Viagens e férias juntos. Boleias. Kierkegaard.
Sem nos vermos, telefona-me. Quer saber como estou.
Eu também lhe telefono. Mas menos…
Também tem o cabelo encarapinhado e usa patilhas. Também gosta de música alternativa e de cinema. Também foi para Filosofia porque quis. É um devorador de livros e de amizades. Eu tento.
Fui professor no IADE, da cadeira de Filosofia da Arte e do Design, desde Novembro até hoje.
Pode ser que continue nos domínios da retórica e da sofística, falando de livros e de senhores mortos, de valores e de consumismo, de cultura e de arte, de cyborgs e de implantes.
A pica, a pica do outro mundo, essa já ninguém ma tira!
Obrigado Zé.
O Bártolo é uma referência dos tempos da faculdade. Tertúlias. Copos. Viagens e férias juntos. Boleias. Kierkegaard.
Sem nos vermos, telefona-me. Quer saber como estou.
Eu também lhe telefono. Mas menos…
Também tem o cabelo encarapinhado e usa patilhas. Também gosta de música alternativa e de cinema. Também foi para Filosofia porque quis. É um devorador de livros e de amizades. Eu tento.
Fui professor no IADE, da cadeira de Filosofia da Arte e do Design, desde Novembro até hoje.
Pode ser que continue nos domínios da retórica e da sofística, falando de livros e de senhores mortos, de valores e de consumismo, de cultura e de arte, de cyborgs e de implantes.
A pica, a pica do outro mundo, essa já ninguém ma tira!
Obrigado Zé.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Mostra Gastronómica
Estávamos para ir à terra há uns meses. Os feriados não abundavam e, quando apareciam, já tínhamos que fazer.
A vida é assim. Queixamo-nos, mas o arrependimento não se acalma com as lamúrias.
Desta vez é que era. Vinha um feriado aí na nossa direcção e eu não tinha formação no Sábado. Adiei um curso para a segunda seguinte e estava tudo decidido!
Dia 7 lá arrancámos e partimos em direcção ao campo. As viagens para a terra fazem-me sempre sentir novamente um puto de 4 ou 5 anos. Imagino os meus amigos da terra, os quintais que defendia dos inimigos, os campos de milho transformados em savanas impenetráveis, a ribeira onde caçava girinos com 2 pernas.
Parámos na sede do Concelho para comprar mantimentos. Sim, porque na terra já há um LIDL! E foi com surpresa que vimos os anúncios a uma segunda feira gastronómica que iria ocorrer no local, precisamente no fim de semana em causa.

Apesar da minha insistência em realizar a viagem do rejuvenescimento umas 3 a 4 vezes ao ano, nunca tinha ouvido falar em tal coisa… mas o que me mais espantou não foi o ser o segundo evento desta espécie! O que mais me espantou é que um Concelho desertificado, com a pior rede viária do País, praticamente sem Indústrias (honra seja feita à Carriça), com uma população envelhecida, sem médicos e com um dos mais altos índices e percentagens de área ardida do País, aposte em eventos destes!!
Creio que o meu espanto também nada tem de original.
Muitos houve que se espantaram com o Mosteiro dos Jerónimos quando o povo morria à fome. Outros criticaram a edificação do Convento de Mafra em alturas de miséria.
Mas mostras gastronómicas? Festa das tasquinhas? Feiras de artesanato?
Como sendo o ponto alto do programa político de uma Câmara ou de uma região?
Eu continuo sem perceber o que é que esta classe política pensa do País, da sociedade ou do mundo, embora desconfie que a culpa é dos meus olhos e não da vista deles.
Eu lá fui jantar à Junta de Freguesia do Piódão, comer um bom Bacalhau à Lagareiro ensopado em broa de milho caseira, beber um vinho do Dão e uma bela aguardente de mel. Só isso me fez aguentar a Banda Filarmónica do Barril e o Rancho Folclórico de Celavisa.
O País pode estar a arder, mas se lhe derem circo…
A vida é assim. Queixamo-nos, mas o arrependimento não se acalma com as lamúrias.
Desta vez é que era. Vinha um feriado aí na nossa direcção e eu não tinha formação no Sábado. Adiei um curso para a segunda seguinte e estava tudo decidido!
Dia 7 lá arrancámos e partimos em direcção ao campo. As viagens para a terra fazem-me sempre sentir novamente um puto de 4 ou 5 anos. Imagino os meus amigos da terra, os quintais que defendia dos inimigos, os campos de milho transformados em savanas impenetráveis, a ribeira onde caçava girinos com 2 pernas.
Parámos na sede do Concelho para comprar mantimentos. Sim, porque na terra já há um LIDL! E foi com surpresa que vimos os anúncios a uma segunda feira gastronómica que iria ocorrer no local, precisamente no fim de semana em causa.

Apesar da minha insistência em realizar a viagem do rejuvenescimento umas 3 a 4 vezes ao ano, nunca tinha ouvido falar em tal coisa… mas o que me mais espantou não foi o ser o segundo evento desta espécie! O que mais me espantou é que um Concelho desertificado, com a pior rede viária do País, praticamente sem Indústrias (honra seja feita à Carriça), com uma população envelhecida, sem médicos e com um dos mais altos índices e percentagens de área ardida do País, aposte em eventos destes!!
Creio que o meu espanto também nada tem de original.
Muitos houve que se espantaram com o Mosteiro dos Jerónimos quando o povo morria à fome. Outros criticaram a edificação do Convento de Mafra em alturas de miséria.
Mas mostras gastronómicas? Festa das tasquinhas? Feiras de artesanato?
Como sendo o ponto alto do programa político de uma Câmara ou de uma região?
Eu continuo sem perceber o que é que esta classe política pensa do País, da sociedade ou do mundo, embora desconfie que a culpa é dos meus olhos e não da vista deles.
Eu lá fui jantar à Junta de Freguesia do Piódão, comer um bom Bacalhau à Lagareiro ensopado em broa de milho caseira, beber um vinho do Dão e uma bela aguardente de mel. Só isso me fez aguentar a Banda Filarmónica do Barril e o Rancho Folclórico de Celavisa.
O País pode estar a arder, mas se lhe derem circo…
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