O pesadelo começa com o silvo característico da pólvora em ignição, bem apertadinha num cartucho de cartão prensado. É o momento em que abrimos abruptamente os olhos e olhamos aflitos para o tecto branco ou não. Antes mesmo de sentirmos o sabor a pauta de música na boca, já o estrondo ecoa no ar, imitando o metralhar de uma metralhadora engasgada. Aqui iniciamos o processo da tomada de consciência: estamos na aldeia, em casa da avó ou da tia ou do primo ou sei lá quem do amigo que nos convidou, e é o dia da festa. Para ajudar à festa (a outra, a metafórica e não a da aldeia), os cães assustados que trocaram a liberdade por uns restos de comida (ou são escravizados pela espécie superior que suportam o seu cheiro e barulho em troca de alguma protecção para as cada vez mais inúteis capoeiras) começam a latir desalmadamente. As crianças também iniciam a berraria. Bastam alguns segundos para que o contágio seja total e todas as crianças das redondezas, dos 0 aos 6 anos, chorem almadamente uma vez que já a têm (a alma).
Seguem-se mais silvos seguidos da metralha. A partir de certa altura começamos a rezar para que, no meio do latido-choro-berro-metralha, consigamos escutar a falta do silvo. Sem silvo não há foguetes. Ás vezes parece que não vai haver mais nenhum foguete… deixámos de ouvir o silvo… mas entretanto lá aparece ele… que merda! Deve ter sido o fogueteiro que precisou de dar uma passa na beata para lhe avivar a ponta. Provavelmente já perdeu uma das mãos num foguete mal aparelhado. A dinamite saltou para fora do papelão atado com corda de sapateiro e roubou-lha. Às vezes também rouba um olho ou três dedos.
Bem feita!
Tudo acaba com os morteiros, uma espécie de foguetes iguais aos outros só que, em vez de se desmultiplicar em pequenas explosões, produzem uma única, forte e intensa, que perdura durante mais tempo nos tímpanos e ecoa se a aldeia tiver a companhia da serra. Tal e qual um peido.
Sem comer chegamos ao café. Os da terra bebem martinis, favaios ou brancos traçados. Nós, os lisboetas, engolimos com dificuldade a bica queimada.
É engraçado assistir à procissão.
Antes podemos participar na missa. Podemos porque realmente é assim. Os homens têm essa permissão. Podem ficar à porta da igreja, a conversar sobre a bola, os campos ou os outros. Uns fumam. Todos vão à vez ao café beber martinis, favaios ou brancos traçados. À hora da missa já há que arrisque uma mini. Dentro de portas estão todas as mulheres que não têm de ficar em casa a preparar o almoço e os homens a quem a vida castigou de maneira cruel. As crianças, mordomas e irmandade também lá estão, orgulhosas dos seus vestidos novos as primeiras e amaldiçoando as bebidas d’ontem os últimos. Os emigrantes, sejam eles da Suíça ou de Lisboa, estão lá todos. Já me esquecia do Padre e da Filarmónica.
Quando termina a consagração, inicia-se a procissão. À frente vai a irmandade que é responsável pela cruz e pelas velas.
No final vai o povo.
Não é aqui que entramos nós, os lisboetas. Nós entramos antes. Se não temos cuidado somos imediatamente intimados a desempenhar tão inusitada mas decisiva tarefa, fruto da desistência de algum previamente eleito que se baldou à última da hora. As bebedeiras têm destas coisas: fazem com que alguns não oiçam os foguetes e ignorem os irados despertadores das mães, avós ou tias que se cansam de os tentar abandonar o processo de destilação.
Somos depois fotografados por máquinas de filmar modernas e convidados a beber um martini, favaios ou branquinho traçado no café da aldeia, enquanto as pétalas, lançadas pelas viúvas que enfeitaram as varandas com colchas de linho tricotadas à mão, nos vão caindo dos cabelos empastados de gel.
Ainda sem comer, bebemos porque hoje é dia de festa!

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