terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Está quase...

Pois é…

E agora… quando telefonar para casa dos meus pais, quem irá atender?

Passarei a ter de telefonar também para casa dela?

Como irão ser os almoços de fim de semana?

Engraçado como o problema reside em mim e não nela. Sou eu é que não a terei do outro lado do telefone. Sou eu é que terei de almoçar noutro local. Sou eu é que não a terei só para mim (se é que alguma vez a tive).

Uma vez mais sinto que, ao contrário do que todos supomos, temos saudades do que vamos perder.

Tenho a certeza de que ela será feliz. Todos o somos, por breves instantes. E não creio que esteja relacionada a felicidade com o que consta na parte de traz do BI.

Este sábado disfarçarei as lágrimas com copos de vinho, cerveja, champanhe ou o que quer que seja!

Força, minha linda!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Parabéns

Fizeste um ano e eu fiz mais um.

Um brinde a ti e outro a mim.

Que sejamos os dois muito felizes, que contemos muitos e que os outros o vejam.

Assopremos as velas, os dois ao mesmo tempo, e peçamos um desejo. Um desejo secreto que não se pode contar sob pena de não se realizar. Um desejo só nosso, inconfessável, insondável, discreto.

Como o de para o ano termos um bolo com velas e força para as soprar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cassete Pirata

Já assisti a umas seis ou sete ecografias.

O processo é sempre o mesmo. Pedem para ela desapertar a roupa e colocam-lhe um papel azul reciclado (pelo menos tem esse aspecto) na zona púbica, mal se deita na marquesa de napa preta. Colocam-lhe um líquido viscoso na barriga, estilo gel para o cabelo, mas sem o cheiro característico deste, e, então, a médica ginecologista (ou obstetra) pega no scanner e passa-o rapidamente por toda a superfície do ventre dilatado pelo novo ser que procura crescer em ambiente condicionado, de forma a espalhar o gel para facilitar a progressão do aparelho em forma de “T”.

Nesse momento, e só então, reparamos que a médica se transforma em comandante de avião comercial. A sala escurecida é agora um cockpit, o monitor um radar, as luzes são alarmes, os botões ficam ignições e os interruptores comandos de flaps.



No radar surgem imagens imperceptíveis que só a comandante percebe. Vêm-se linhas que ela desenha e diz coisas que a co-piloto escreve num computador, suspeito eu que seja o diário de bordo.

A comandante vai falando e tentando descrever o que só ela consegue ver: Aqui está a coluna, os hemisférios do cérebro, os rins, o fígado…

Maravilha… quem diria…

A ecografia, como o próprio nome indica, baseia-se no princípio físico do eco, i.e., o captar do reflexo da onda provocada pelo som, quando esta encontra no seu percurso uma barreira ou um obstáculo (que deverá ser denso e feito de um material que não absorva as ondas). O ser humano apenas consegue captar o reflexo da onda do som, se esta encontrar um obstáculo a uma distância superior a 17 metros, uma vez que o ouvido e cérebro humanos apenas conseguem distinguir sons com uma diferença de 0,1 segundos. Esta máquina não. Ultrapassa as limitações da nossa obsoleta condição e eleva-nos a um estado de evolução bio-tecnológico ímpar, qual super homens com mais sentidos do que os outros.

A única coisa que me leva a acreditar que, das seis ou sete vezes, não estive sempre a ver a mesma cassete previamente gravada e sistematicamente reproduzida para os sucessivos casais que, ordeiramente e em silêncio, se vão iludindo perante uma máquina/cockpit (não sem antes serem vítimas de uma dramatização convincente - despir, colocar gel para o cabelo, o pormenor do papelinho azul), são as impressões oferecidas e que podemos levar para casa, em papel de fax, com imagens de faces e membros dificilmente reconhecíveis como sendo de um embrião humano.



Mas mesmo estas, apesar de diferentes de ecografia para ecografia, podiam já ter sido impressas, ou não?

Afinal, quem se dá ao trabalho de colocar gel e papelinhos azuis…

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

R-X

FAÇA O FAVOR DE RETIRAR TODOS OS OBJECTOS METÁLICOS

Foi em Novembro de 1895, mais precisamente numa 6ª feira, que o professor de física Wilhelm Conrad Röntgen, alemão, se encontrou acidentalmente com um novo tipo de raios. Investigando os invisíveis raios produzidos num díodo (feixes de electrões que se movem de um cátodo para um ânodo num tubo hermeticamente fechado) reparou que estes criavam uma feixe luminoso quando escurecidos. A sua experiência consistia em criar uma “janela” de alumínio por onde os raios pudessem sair e uma folha de cartão pintada com barium platinocyanide onde os mesmos incidiriam. Ora, ao incidirem nessa folha de cartão, Röntgen reparou que criavam uma luz fluorescente nada comum. Estavam descobertos, acidentalmente, os raios x.

SIM, SIM, A ALIANÇA TAMBÉM…

O nome dado a estes raios, que mais tarde iriam ficar mundialmente conhecidos e serviriam de imaginários a um sem número de romances, ficções e heróis da banda desenhada, não foi, tal como a descoberta dos mesmos, propositada. Pura e simplesmente ficaram designados pela expressão matemática do número desconhecido.

Foram 15 dias de intensas experiências, onde o professor passou a dormir no laboratório, escrevendo incansavelmente as suas notas.

Sensivelmente duas semanas após a descoberta da estranha luz fluorescente, tirou a primeira imagem por intermédio dos novos raios. A imagem foi a da mão da sua esposa, Anna Bertha. Consta que, ao observar a imagem do esqueleto da sua própria mão, Anna terá exclamado: “Eu vi a minha morte!”



AGORA DEITE-SE DE BARRIGA PARA CIMA. TEM A CERTEZA QUE NÃO TEM BOTÕES METÁLICOS?

Num destes fins de semana estive com a malta da minha rua. Fomos todos beber e comer a uma cervejaria dos subúrbios. O motivo foi o casamento do Frederico (ou Fred, como é conhecido pelos que cresceram juntos). Eu não fui convidado, claro, pois sou de uma geração mais velha. Quem é da geração dele são os nossos irmãos. E esses foram-no.

No final de um dia de verão, com as luzes dos candeeiros já acesas, alguém lançou uma bola à imaginária barra riscada entre as portas dos prédios. Eram tempos em que os carros não ocupavam todos os lugares de estacionamento. O Fred, miudito, estava à baliza e gritou 3 vezes: “Foi à ‘raba!’”. Um dia depois do seu casamento ainda é conhecido por isso. Há cicatrizes que a vida não gosta de apagar.

AGORA FIQUE QUIETO, SIM?

O convite veio do Miguel. O Miguel era o meu vizinho de baixo.

Pouco depois de se ter mudado para o nosso bairro, enganou-se e foi tocar à nossa porta. Quando a abrimos, o pequenito Miguel, assustado, desatou a chorar. Os pais não estavam em casa. Ainda agora tinham chegado a uma casa nova e já se tinham ido embora. Entrou e ficámos amigos para o resto da tarde. Passávamos os dias à espera de irmos brincar para casa um do outro. Eu sempre preferi os brinquedos dele e gosto de acreditar que ele também preferia os meus. Quando os trocávamos (e eu finalmente podia levar os soldadinhos do Miguel para o campo de batalha na colcha amachucada da minha cama) já éramos amigos para o resto da vida.

Os nossos irmãos nasceram no mesmo ano. O dele, o Filipe, estava sentado ao lado dele. A minha ficou em casa. Nessa noite não pode reencontrar quem nunca perdeu.

TCHACK!

Do outro lado estava o Nuno. Vivia no prédio ao lado e só ficámos amigos mais tarde. Ainda assim tivemos tempo para fazer jogos de futebol até ao por do sol e bastante depois disso. O Nuno jogava muito bem e todos queriam ser da equipa dele. Para além disso nunca se zangava e tinha quase sempre razão. Só reparei que gaguejava quando alguém mo disse. Há cicatrizes que só existem porque os outros querem.

O irmão também lá estava com a sua namorada nova. O Joca veio da Escócia de propósito para o casório. E desta vez a namorada é Polaca. Já lhe tínhamos conhecido uma Inglesa e outra Russa ou Lituana.

VIRE-SE AGORA DE BARRIGA PARA BAIXO, ESTÁ BEM?

Na ponta estava o Pedro. Vivia no prédio da frente e sempre foi o mais conflituoso. Nunca gostou de perder nem que os outros tivessem razão. Era sempre bom tê-lo na nossa equipa, pois dava caneladas nos outros a corria até não poder mais. Foi dos primeiros a falar-me sobre política e a mostrar-me os fundamentos do comunismo, apesar de uma ano mais novo. Era óptimo quando o Pedro podia vir à rua, pois assim já dava para fazermos uma equipa e jogar com a outra rua. E também atirava pedras com mais força do que qualquer um de nós!

O Hugo estava sentado em frente ao irmão mais velho. Ele também se fez forte e foi embora. Rumou à Suíça e aproveitou as promoções da easyjets para vir ao casamento.

AGORA QUIETO, POR FAVOR

Bastante mais tarde chegou o Ruben com a namorada. O Ruben era o irmão da Sandra, a rapariga mais bonita da rua. Todos nos apaixonámos por ela e, cada um à sua maneira, acreditou que ela gostava era dele. Ficámos a saber que já tem 3 filhos e, apesar de recentemente divorciada, foi viver para Espanha.

TCHACK

O motivo do encontro, afinal, não foi o casório, mas a presença do Joca e do Hugo. Manos mais novos, fizeram-se fortes e foram-se embora. É raro vê-los e muito mais precioso encontrá-los juntos. É tão bom quando alguém trata de juntar os que raramente se juntam.

MUITO BEM, PODE ESPERAR LÁ FORA QUE EU JÁ O CHAMO.

Ao contrário da Anna Bertha, sempre que vejo a malta da R-X, vejo a minha infância.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty

Primeiro pensava que este tipo de pensamentos só me assaltavam a mim…

Depois percebi que não.

De seguida pensei que só me assaltariam da primeira vez… as primeiras vezes são sempre piores…

Pelos vistos também não.

“O coração apertou-se-me. Não muito leve. O céu estava limpo, a luz transparente e, contudo, tenaz, insistente, sentia desprender-se à minha volta um cheiro insípido, como se sob a sua película lustrosa todos estes instantes estivessem apodrecidos no coração: era o cheiro insípido da resignação.
Hélène soergueu-se.
— Achas absurdo termos filhos, não é?
Olhei-a surpreendido.
— Tens vontade de os ter?
— Sim e não. Pergunto-me se isso não enriquecerá esta vida.
Sorri.
— E não querias perder uma ocasião de enriquecer?
— Não te rias. O que é que tu achas, tu?
— Antigamente, achava insensato lançar alguém no mundo.
Isso não te assusta?
Ela hesitou.
— Não. Mesmo que um homem seja infeliz, poderemos realmente dizer que seria melhor ele não ter existido?
— De facto — disse eu. — Mas se esse homem espalhar o mal à sua volta?
— E se espalhar o bem?
— Oh, tens razão! Fazer nascer uma criança, impedi-la de nascer... é igualmente absurdo. É indiferente.
— Mas quando se deseja uma coisa já não é indiferente. Então já não é absurdo fazê-la, pois não?
— Talvez o meu erro seja não saber ainda desejar nada.
Ela riu-se:
— O teu erro? Não acredito que tenhas assim tantos erros!
Eu ia remando e o barco deslizava sem deixar rasto, muito calmo. Não ser nada senão esta espuma branca que sobe e se perde na toalha igual da água. Era preciso matar esta voz. A voz dizia: eu queria ser esta espuma. E ela disse: era preciso matar esta voz. A espuma nascia e morria sem voz.
Do alto de uma prancha de mergulho, um corpo moreno saltou para o rio; pares enamorados caminhavam pela margem com passos miúdos. Um domingo de paz. As horas fugiam-nos por entre os dedos. Longe dali, havia horas que se depositavam no solo, misturadas ao ferro fundido e ao aço. Todos os dias saíam das fábricas alemãs novos canhões, novos tanques."
Simone de Beauvoir, “O Sangue dos Outros”, Colecção Mil Folhas, nº 38, Público, 2003.

A segunda vez ainda está a ser pior que a primeira.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

PROCISSÃO

Graças a Deus que proibiram os foguetes! Acho que até nutro alguma simpatia pelos incendiários e pirómanos quando penso nisso. Não fora eles e a tragédia que causam todos os verões, ainda hoje teríamos de suportar as intermináveis alvoradas de pólvora feitas, precisamente às 8 da manhã.

O pesadelo começa com o silvo característico da pólvora em ignição, bem apertadinha num cartucho de cartão prensado. É o momento em que abrimos abruptamente os olhos e olhamos aflitos para o tecto branco ou não. Antes mesmo de sentirmos o sabor a pauta de música na boca, já o estrondo ecoa no ar, imitando o metralhar de uma metralhadora engasgada. Aqui iniciamos o processo da tomada de consciência: estamos na aldeia, em casa da avó ou da tia ou do primo ou sei lá quem do amigo que nos convidou, e é o dia da festa. Para ajudar à festa (a outra, a metafórica e não a da aldeia), os cães assustados que trocaram a liberdade por uns restos de comida (ou são escravizados pela espécie superior que suportam o seu cheiro e barulho em troca de alguma protecção para as cada vez mais inúteis capoeiras) começam a latir desalmadamente. As crianças também iniciam a berraria. Bastam alguns segundos para que o contágio seja total e todas as crianças das redondezas, dos 0 aos 6 anos, chorem almadamente uma vez que já a têm (a alma).

Seguem-se mais silvos seguidos da metralha. A partir de certa altura começamos a rezar para que, no meio do latido-choro-berro-metralha, consigamos escutar a falta do silvo. Sem silvo não há foguetes. Ás vezes parece que não vai haver mais nenhum foguete… deixámos de ouvir o silvo… mas entretanto lá aparece ele… que merda! Deve ter sido o fogueteiro que precisou de dar uma passa na beata para lhe avivar a ponta. Provavelmente já perdeu uma das mãos num foguete mal aparelhado. A dinamite saltou para fora do papelão atado com corda de sapateiro e roubou-lha. Às vezes também rouba um olho ou três dedos.

Bem feita!

Tudo acaba com os morteiros, uma espécie de foguetes iguais aos outros só que, em vez de se desmultiplicar em pequenas explosões, produzem uma única, forte e intensa, que perdura durante mais tempo nos tímpanos e ecoa se a aldeia tiver a companhia da serra. Tal e qual um peido.

Sem comer chegamos ao café. Os da terra bebem martinis, favaios ou brancos traçados. Nós, os lisboetas, engolimos com dificuldade a bica queimada.

É engraçado assistir à procissão.

Antes podemos participar na missa. Podemos porque realmente é assim. Os homens têm essa permissão. Podem ficar à porta da igreja, a conversar sobre a bola, os campos ou os outros. Uns fumam. Todos vão à vez ao café beber martinis, favaios ou brancos traçados. À hora da missa já há que arrisque uma mini. Dentro de portas estão todas as mulheres que não têm de ficar em casa a preparar o almoço e os homens a quem a vida castigou de maneira cruel. As crianças, mordomas e irmandade também lá estão, orgulhosas dos seus vestidos novos as primeiras e amaldiçoando as bebidas d’ontem os últimos. Os emigrantes, sejam eles da Suíça ou de Lisboa, estão lá todos. Já me esquecia do Padre e da Filarmónica.

Quando termina a consagração, inicia-se a procissão. À frente vai a irmandade que é responsável pela cruz e pelas velas. Antes do padre, ainda há tempo para as ofrendas ou cabaças que não passam de tabuleiros de comida e bebida oferecidas pelas mordomas para leiloar em favor da festa. Estas têm o privilégio de escolher quem carrega as ofrendas e os andores, já que cada uma foi responsável por enfeitar um dos santos que habita a igreja e que, na procissão, competem entre si em beleza e fartura de comida. Elas escolhem aqueles que os irão carregar pelas ruelas da aldeia enquanto acompanham, bem vestidas e penteadas, o fruto do seu labor nas semanas que antecederam o dia da festa. Depois novamente a irmandade que leva mais velas e figuras religiosas e depois é o padre e o presidente da junta, casa do povo ou associação de beneficência da aldeia. Estes têm direito a protecção suplementar, sob a forma de um palio erguido por 4 ou 6 voluntários que honrosamente se desculpam pela inexperiência, cadência, falta de jeito e tropeções que vão infligindo uns aos outros. A filarmónica, que entoa tristes músicas de marcha lenta com os seus reluzentes instrumentos e pautas brancas seguras com molas de roupa, segue em passo certo anunciando a procissão que termina.
No final vai o povo.

Não é aqui que entramos nós, os lisboetas. Nós entramos antes. Se não temos cuidado somos imediatamente intimados a desempenhar tão inusitada mas decisiva tarefa, fruto da desistência de algum previamente eleito que se baldou à última da hora. As bebedeiras têm destas coisas: fazem com que alguns não oiçam os foguetes e ignorem os irados despertadores das mães, avós ou tias que se cansam de os tentar abandonar o processo de destilação.

Somos depois fotografados por máquinas de filmar modernas e convidados a beber um martini, favaios ou branquinho traçado no café da aldeia, enquanto as pétalas, lançadas pelas viúvas que enfeitaram as varandas com colchas de linho tricotadas à mão, nos vão caindo dos cabelos empastados de gel.

Ainda sem comer, bebemos porque hoje é dia de festa!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A PRINCESA DO ALVA

Sentada nas margens do rio que um dia irá herdar, molha os pés com medo de pisar algum girino acabado de nascer. Apesar de muito abundantes no final do verão, são difíceis de encontrar. Normalmente vêm das ribeiras que se desfazem no leito limpo mas escuro por causa do fino húmus que se desfaz nos seus muitos buracos, casa das cabras cegas, trutas, enguias e cobras d’água. Gostam de se esconder por entre os seixos pretos, roliços e espalmados. Quando começam a ter patas, adora vê-los indecisos sobre o seu papel na natureza, também ela híbrida. Ora saltam, ora nadam, sem saberem lá muito bem o que fazer com tão estranhos apêndices.

É uma princesa branca e bela, como o são todas.

No Inverno fecha-se em casa, com medo do nevoeiro que sobe do rio. Principalmente de noite. O dia, quando vem despido e sem lágrimas, é aproveitado para namoriscar as videiras, o milho, os pinheiros e os castanheiros que fazem companhia às oliveiras. De vez em quando também visita as couves, os nabos e as batatas. Quando lhe apetece vai buscar umas cavacas só pelo prazer de as atirar à lareira.

É uma princesa branca e muito bela. Tem uma pele sedosa como teriam as flores se tivessem pele.

Vou visitar a princesa do alva menos vezes do que gostaria. Talvez umas três vezes por ano, não mais. Quando era pequeno ficava na sua companhia durante os três meses de Verão. Adorava ouvir as suas histórias. De quando em vez contava-me um ou outro dos segredos do campo. Nunca falava dos mistérios do rio. E esses eram imensos.

É uma princesa amada pelo seu povo, como o são quase todas.

Fez há pouco tempo 84 anos e o seu nome é Esperança.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Armia Zbawienia

Pouco passava das 10:30 da manhã quando, marchando em falanges imponentes, num brado deslumbrante, foram em socorro do Exército de Salvação sedeado em Varsóvia, quais aliados que entram num campo de batalha de uma cidade destruída pela guerra.

Varsóvia foi praticamente toda destruída pela IIª Guerra Mundial, fruto da decisão de Hitler em aniquilar o símbolo da resistência à ocupação germânica. A 1 de Agosto de 1944 a resistência polaca decide passar à luta armada e revolta-se. É a então denominada “Insurgência”, na qual mais de 18 mil resistentes organizados em verdadeiros corpos de exército, bem como cerca de 180 mil civis, são mortos após 2 meses de intensos combates na capital da ocupada polónia, com o exército vermelho a assistir nas margens do rio Vístula.

Com a capitulação dos insurgentes, capitula também a Polónia. Foi depois ocupada pelos soviéticos até à queda do muro de Berlim de 1989. Bem antes da entrada dos exércitos comandados por Estaline, Hitler teve tempo de se vingar, ordenando que não ficasse pedra sobre pedra na cidade ferida pelos constantes bombardeamentos aquando da revolta. Foi um plano executado á letra pelas SS que demoliu sistematicamente todas as principais artérias, bairros e edifícios, deportando habitantes e perseguindo colaboradores. Varsóvia ficou reduzida a 10% do que era antes do início da Guerra.

Assim sendo, não é de estranhar que toda a cidade seja um monumento aos resistentes (ou aos insurgentes). Andando pelos bairros da cidade, sejam eles quais forem, é impossível não deparar com placas, de bronze enegrecido, em edifícios de estilo comunista comemorando a morte de um ou vários heróis que pereceram estoicamente às mãos de um exército ocupante. Algumas são adornadas com fitas vermelhas e brancas, flores da época e velas meio derretidas. Os edifícios que sobreviveram ostentam, orgulhosos, os tijolos vermelhos com marcas de balas e as inevitáveis placas.

De vez em quando encontramos uma praça onde estátuas de ferro negro representam a luta, com homens e mulheres de uniforme alemão, carregando ora os filhos ora as armas, a entrarem em esgotos, a saltarem ruínas, a dispararem para inimigos imaginários. Uma vez mais as fitas bicolores e as velas semiapagadas tornam o cenário um pouco mais assustador do que já era. Os Polacos levam aquilo a sério.



Sem querer entramos no gueto. Aqui os alemães prenderam todos os judeus de Varsóvia até os conseguirem deportar para os vários campos de extermínio. Há museus ao ar livre que mais não são do que restos de arame farpado, muros esburacados e casamatas destruídas por toda a parte.

Os reforços chegaram num dia de chuva. Para lá chegarem ouviram rumores de que o distrito de Praga Północ, bem perto do Jardim Zoológico, era um dos mais problemáticos da cidade. Segundo lhes diziam os habitantes de Cracóvia e de Zakopane, havia um assassínio por dia, acompanhado por vários assaltos à mão armada. Sem se intimidarem, marcharam orgulhosamente até se juntarem ao Armia Zbawienia.







Constituído por apenas 3 membros, fundaram a sua Igreja Evangélica há apenas 1 ano. Ocupam os seus dias jogando futebol, rezando e idealizando brincadeiras com jovens e crianças do mais desfavorecido dos bairros de Varsóvia.



É uma batalha que ainda está longe da capitulação.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Chata pod Rysmi

À distância de meia hora da fronteira polaca (sim, porque em montanha as distâncias medem-se em tempo) e situada a 2250m de altitude, encontra-se o abrigo de montanha / pensão Chata pod Rysmi.



A fronteira é a do sul.



O território é o dos Altos Tatras, espécie de Alpes Polacos e eslovacos, parque natural de qualidade invejável. Não só pelo cuidado nele posto como pela própria natureza. Ainda lá vivem Ursos em estado selvagem, que namoram com águias reais e cabras montesas em alturas de menor frio. Com a neve chegam os esquiadores e os Ursos escondem-se nas grutas para dormir, fingindo hibernar para não serem chateados.

Embora situado em território Eslovaco, não se pode dizer que este abrigo tenha uma nacionalidade definida. Para além de podermos trocar vários tipos de notas e moedas (Euros, zlotis e coroas, pelo menos) por impagáveis cervejas de meio litro (pivos) e reconfortantes cafés (nada de expressos! Ou turco ou instantâneo!), por lá sente-se uma espécie de fraternidade internacional.

Enquanto recobrávamos da esgotante subida ao ponto mais alto a Polónia (Monte Rysy, 2499m de altitude, sempre defendidos pela chuva, guardados pelo frio e camuflados de nevoeiro – diariamente a partir das 11:00 e até às 17:00), sentados em mesas de forte madeira e bancos corridos e tentando não nos engasgarmos com uma refeição quente ao fim de 8 horas de inclinações
que obrigam à utilização de correntes para a conquista do bicho, somos presenteados com escaladores e hikers oriundos da Suécia, Inglaterra, Checos e, claro está, Eslovacos e Polacos. Também lá estavam uns quantos alpinistas que treinavam para uma subida a um cume qualquer de nome nepalês, mas não consegui perceber a nacionalidade. Também há desvantagens em falarmos a língua de Shakespeare com sotaques macarrónicos. Pelo menos se nos sentamos a duas mesas de distância. Mesmo que estas sejam corridas.



Não há electricidade nem água potável. A noite é conquistada por esquecidos candeeiros a petróleo e lanternas frontais. A água está á disposição em duas tinas de alumínio, logo à entrada. Cada um serve-se numa caneca e leva-a lá para fora para o que tiver de fazer. Eu lavei muitas vezes as mãos e uma vez os dentes. Também não há caixotes do lixo. O que cada um faz, deve levá-lo de volta.

Ainda assim, aquilo que mais chama a atenção nesta desolada região de montanha, onde o cinzento das pedras rejeita o azul do céu e o branco das nuvens se dilui nos restos de gelo que o sol não consegue beber, são as casas de banho. Em tão espartanas condições, seria natural que aquelas também o fossem. Puro engano. A cerca de 100 metros da Casa Abrigo, percorrendo o trilho de cerca de hora e meia em direcção à primeira povoação eslovaca, encontramos umas latrinas profusamente decoradas. Pintura em tons quentes, obra de arte com influências dos movimentos de libertação da década de 60, facilmente reconhecemos os símbolos da paz, do prazer e do sexo livre. A cerca de 10 metros da dita impõe-se um símbolo fálico em madeira esculpido e impecavelmente ornamentado, convidando os mais aflitos a uma breve antevisão do alívio prometido e os mais curiosos a poses para fotografias digitais. Para quem tem mais tempo, estão disponíveis dois bancos de jardim. Isto porque a casas de banho são só para um. Os outros que esperem.

A espera só custa porque o que se vê lá de dentro é de outro mundo. Toda a frente do pequeno cubículo de madeira é de vidro feita. Uma enorme janela de vidro duplo para um vale encantado. Uma sanita rústica que dá para um buraco. Um buraco que dá para o mesmo vale. Sente-se um ventinho agradável no rabo e um prazer enorme na vista. Fiquei lá muito mais tempo do que precisava. E do que devia também, pois o grande pénis já tinha perdido o carácter de novidade e os bancos de jardim teimavam em ser poucos para tanta afluência. Não quis saber e voltei a fazer mais um pouco de esforço para justificar o meu egoísmo em tão imprevisível lugar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Oświęcim

Pequena cidade a cerca de 65 Km a Oeste de Cracóvia, pouco tem de interessante para além da estação de comboio. Faz lembrar uma daquelas cidades americanas escondidas no deserto do Texas, com algumas casas de dois andares que cresceram à espreita da única estrada alcatroada que atravessa a região. Neste caso a estrada é composta de duas linhas de ferro, em vez do alcatrão derretido pelo sol.



Em 1940 Oświęcim foi objecto de estudos geológicos. Os alemães recém entrados na Polónia analisaram a capacidade de drenagem das vastas planícies que sustentavam o cultivo de cereais. A grande capacidade de drenagem aliada ao facto de o terreno ser plano agradava-lhes. Principalmente porque nesta pequena localidade se situava um nó ferroviário de alguma importância. Central e com grande capacidade de movimentação de transportes, tanto de comboios como de carros, era o local ideal para a localização de um novo pólo industrial. Esse pólo foi desenvolvido o quanto antes. Lá se instalaram fábricas de borracha sintética e de combustível, como a Buna-Werke, bem como, com o decorrer da segunda guerra mundial, toda uma série de fábricas relacionadas com o esforço de guerra alemão.



Provavelmente nunca ninguém ouviria falar de Oświęcim não fora o facto de lá se ter instalado a maior de todas as fábricas, ela sim imprescindível ao sucesso de todas as outras…







… e se muito poucos escutaram este nome foi porque os alemães o mudaram logo após a ocupação. Oświęcim passou a figurar nos mapas de geografia como Auschwitz.



A entrada é gratuita (como só o poderia ser) e é visitado cerca de 250.000 pessoas anualmente: Americanos que contemplam a arquitectura e as madeiras dos telhados que resguardam as casernas abandonadas pelo exército polaco ainda antes da eclosão da guerra,





grupos de jovens em excursões escolares, famílias que aproveitam o dia para saírem de casa, peregrinações de judeus que ostentam a bandeira de Israel e rezam baixinho cânticos que ensurdecem as nossas almas. Cá fora há amplos jardins que convidam a um pique-nique e vários parques de estacionamento para autocarros autopluma com ar condicionado.



Por 2 zlotis e meio compramos o guia do museu património da humanidade e pela mesma quantia assistimos ao filme de 30 minutos que faz o necessário enquadramento. Ao todo gastamos 1 euro e meio (se não contarmos com o zloti e meio que gastamos nas imaculadas casas de banho guardadas por circunspectas, mas nem por isso antipáticas, senhoras de semblante carregado). Há minibuses que nos levam, também gratuitamente, em silêncio durante 3 km até Birkenau. Também nos trazem de volta. Ainda bem.





Nós não gastámos os 210 zlotis da visita guiada. Ainda mal…