quinta-feira, 26 de julho de 2007

Jogging

Quando a chuva abandona os céus, assustada pelos gritos de calor que a terra lhe lança ao inclinar perigosamente a sua cabeça em direcção ao Sol e deixando propositadamente os pés ao frio, como que para compensar o conforto de uns com o desconforto de outros, a nossa cidade muda de cor. De cor e não só. Também muda de atitude.

Eu, pelo menos, mudo.

Exemplo disso é a minha sádica vontade de calçar uns ténis, vestir uma T-shirt cinzenta e copiar os políticos modernos correndo pela manhã ou ao final da tarde enquanto o comum dos mortais me observa, no meio de uns quantos seguranças de óculos escuros e coisas esquisitas nas orelhas.

Obviamente não sou seguido pelos senhores musculados e de semblante carregado, com os penteados imaculadamente imaculados por um miraculoso gel, nem tão pouco sou capaz de correr logo pela manhã.

No entanto sou observado pelo comum dos mortais.

Ao chegar cruzo-me com os clientes de um Clube de Ténis, Ginásio, Squash , Body Combat e coisas afins, que saem dos seus carros de gama alta, enfeitados por permanentes fingidamente descuidadas (elas) e fatos propositadamente desengravatados minutos antes de entrarem em Clube de gente fina (eles). O olhar que me lançam não é propriamente piedoso. Antes um misto de reprovação e incompreensão.

Já em plena libertação de toxinas, cruzo-me com os caninos que aproveitam o final da tarde para passear os donos. Estes são mais perigosos. Nem sempre acondicionam os seus melhores amigos com as respectivas trelas e é normal que me observem com apreensão: “Se o raça do cão lhe dá uma dentada, estou em sarilhos!”, pelo que me olham quase sempre com medo. Pelo canto do olho, enquanto o outro canto segue os fiéis amigos.

Passo sempre por vários casais de namorados, sentados em bancos de madeira cuidada, quase sempre à sombra de olhares indiscretos. Mestres em visão periférica e com a adrenalina perto do limite, transformam os sinais de sexo explícito em implícito. Não resisto em reatar um atacador supostamente mal apertado na proximidade dos mais afoitos. O que é bom deve ser sofrido, certo?

Há um parque infantil no fundo do jardim, onde as energias normalmente já não são muitas e o esforço tem de ser bem doseado (é o início de uma subida lixada). Os risos das crianças, os pais cansados ou os avós babados observam-me de acordo com a curiosidade da respectiva idade. E com alguma compreensão, também. Á excepção dos primeiros todos estamos a fazer um frete. Pelo menos passados alguns minutos.

Também há os sem-abrigo. Esses mal olham para mim. Se não estivesse a correr, talvez me pedissem um cigarro ou umas moedas. Assim limitam-se a enrolar mais um Detroit ou a beber mais um gole de vinho para acompanhar a carcaça com manteiga, escondida no saco de plástico velho que faz barulho para esconder a solidão.

Claro que passo por compichas. Aqueles que, como eu, não conseguem resistir ao sádico apelo da translação terrestre. Há-os de todas as idades, raças e géneros. Há o indiano que corre sempre em calças de fato de treino, cantando os mesmos sons regurgitados pelos headphones da loja do pai que um dia irá ser sua; há o casal que não corre, apenas marcha seguindo a prescrição do médico dos pulmões ou do coração, apesar dos cerca de 40 anos que aparentam 50 que ainda não têm; há o velho gordo que mostra sempre um pouco do umbigo e encharcaria t-shirt mesmo se não corresse. Todos nos olhamos com simpatia, aproveitando para contar as voltas que cada um dos outros dá ao circuito. Depois há o “Pró”. Sempre com roupas a condizer, nunca sua e pára em todas as estações do circuito de manutenção para realizar os exercícios mais difíceis (os de cor castanha segundo o manual de instruções prontamente colocado antes de cada aparelho). Pelo menos quando alguém passa por ele.

Mas dos que eu mais gosto são os Ucranianos, Bielorussos e Romenos que costumam fazer-me companhia ao Domingo. Juntam-se no parque de merendas e enchem as mesas de garrafas de vodka de marcas esquisitas ou latas de cerveja do LIDL e comidas com molhos e cheiros desconhecidos. Dançam ao som dos carros mal estacionados de vidros abertos e portas escancaradas que teimam em reproduzir música pimba da terra deles. Outras vezes conversam sobre projectos de casas a construir nas mesmas terras, assentes em euros que custam a ganhar. Matam saudades, matam a fome, matam a sede. Matam porque não estão mortos.

Ao passar por eles sou agraciado com urros e palmas dos menos sóbrios. Homens e mulheres de cabelos louros aplaudem-me com sorrisos marcados por dentes de ouro, ao mesmo tempo que sou ultrapassado pelo reformado que faz do Parque José Gomes Ferreira mais do que um conjunto de árvores antes de chegar à Rotunda do Relógio.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Quinta Tribuna

Tudo começou em Outubro, quando o Bártolo me telefonou, uma tarde. Era uma tarde como as outras. Estava num intervalo entre formações e escutei a sua sempre agradável voz. Contou-me que ia para a América. Tinha ganho uma bolsa de pós doutoramento e não conseguiria assegurar as aulas que, desde há 8 anos, leccionava no IADE. Perguntou-me se estava interessado. Eu disse que sim.

O Bártolo é uma referência dos tempos da faculdade. Tertúlias. Copos. Viagens e férias juntos. Boleias. Kierkegaard.

Sem nos vermos, telefona-me. Quer saber como estou.

Eu também lhe telefono. Mas menos…

Também tem o cabelo encarapinhado e usa patilhas. Também gosta de música alternativa e de cinema. Também foi para Filosofia porque quis. É um devorador de livros e de amizades. Eu tento.

Fui professor no IADE, da cadeira de Filosofia da Arte e do Design, desde Novembro até hoje.

Pode ser que continue nos domínios da retórica e da sofística, falando de livros e de senhores mortos, de valores e de consumismo, de cultura e de arte, de cyborgs e de implantes.

A pica, a pica do outro mundo, essa já ninguém ma tira!

Obrigado Zé.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Mostra Gastronómica

Estávamos para ir à terra há uns meses. Os feriados não abundavam e, quando apareciam, já tínhamos que fazer.

A vida é assim. Queixamo-nos, mas o arrependimento não se acalma com as lamúrias.

Desta vez é que era. Vinha um feriado aí na nossa direcção e eu não tinha formação no Sábado. Adiei um curso para a segunda seguinte e estava tudo decidido!

Dia 7 lá arrancámos e partimos em direcção ao campo. As viagens para a terra fazem-me sempre sentir novamente um puto de 4 ou 5 anos. Imagino os meus amigos da terra, os quintais que defendia dos inimigos, os campos de milho transformados em savanas impenetráveis, a ribeira onde caçava girinos com 2 pernas.

Parámos na sede do Concelho para comprar mantimentos. Sim, porque na terra já há um LIDL! E foi com surpresa que vimos os anúncios a uma segunda feira gastronómica que iria ocorrer no local, precisamente no fim de semana em causa.


Apesar da minha insistência em realizar a viagem do rejuvenescimento umas 3 a 4 vezes ao ano, nunca tinha ouvido falar em tal coisa… mas o que me mais espantou não foi o ser o segundo evento desta espécie! O que mais me espantou é que um Concelho desertificado, com a pior rede viária do País, praticamente sem Indústrias (honra seja feita à Carriça), com uma população envelhecida, sem médicos e com um dos mais altos índices e percentagens de área ardida do País, aposte em eventos destes!!

Creio que o meu espanto também nada tem de original.

Muitos houve que se espantaram com o Mosteiro dos Jerónimos quando o povo morria à fome. Outros criticaram a edificação do Convento de Mafra em alturas de miséria.

Mas mostras gastronómicas? Festa das tasquinhas? Feiras de artesanato?

Como sendo o ponto alto do programa político de uma Câmara ou de uma região?

Eu continuo sem perceber o que é que esta classe política pensa do País, da sociedade ou do mundo, embora desconfie que a culpa é dos meus olhos e não da vista deles.

Eu lá fui jantar à Junta de Freguesia do Piódão, comer um bom Bacalhau à Lagareiro ensopado em broa de milho caseira, beber um vinho do Dão e uma bela aguardente de mel. Só isso me fez aguentar a Banda Filarmónica do Barril e o Rancho Folclórico de Celavisa.

O País pode estar a arder, mas se lhe derem circo…

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Adolfo Vieira de Brito

Nunca tinha ouvido falar em tal personagem e, de repente, invadiu a minha vida como só os desejos e os medos o conseguem.

Tudo começou há uns meses. Veio de surdina. Aos poucos… como não querendo dar nas vistas.

Primeiro em conversas de intervalo, escondido pelo zapping sôfrego de quem quer passar anúncios mais depressa, a fim de chegar finalmente á segunda parte das séries que passam na 2:.

Depois foi envolto em noticiários e informações de trânsito, nas raras vezes que nos sentamos os dois (ou os três) no mesmo carro e ao mesmo tempo.

Finalmente foi ao jantar. E aí já não pude fugir! Estava encurralado!

Em Março enchi-me de coragem e deixei-me convencer a visitá-lo. Fui mais a M. e não desgostei de todo, embora a sensação desagradável não tenha, nem por sombras, desaparecido.

A semana passada fui lá sozinho…

Depois de preencher não sei quantos papéis, ter repetido vezes sem conta os números de SS, BI e NIF de todos os que vivem cá em casa, fui confrontado, inevitavelmente, com a mais reveladora de todas as decisões: Quem pode vir levantá-la para além dos progenitores?

Triste, cabisbaixo, vencido, escrevi o nome da minha mãe, da minha irmã e da minha sogra.

A partir de Setembro Adolfo Vieira de Brito fará parte das conversas de todos os dias…

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Sexualidade Feminina

Assim se chama o blog da Isabel.

Com este já lá vão 3 colegas, amigos ou grandes conhecidos que ficaram mais próximos da imortalidade.

Soube, também, entretanto, que o Luís Trindade já escreveu 1. Mas não vejo o Luís há muito tempo, embora passássemos grande parte da infância juntos, e partilhássemos algumas férias regadas de cervejas casuais em Côja e em Coimbra. Por isso não quero contar com esse.

Sinto um misto de orgulho e impotência. Orgulho por eles também me pertencerem, impotência por não saber se também lhes pertenço (e nada poder fazer para tal).

Foi um lançamento muito bonito e interessante. Não do disco. Do livro. Encontrei o Jaleco, a Dina e de repente voltámos uns anos atrás. Voltaram as bocas, as piadas fatelas e os gritos pela Académica de Coimbra (ao que parece não desceu de divisão). Isto ao mesmo tempo que um repórter tentava gravar a sua peça para a câmara da RTP, falhando consecutivamente várias tentativas. Coitado…

A Isabel estava lindíssima, tal como o resto da sua família.

Fomos beber uma imperial, a correr porque os tempos já não são os da faculdade, e acabámos por beber duas. Isto enquanto a Isabel continuava a assinar livros nas mãos de psicólogos, sexólogos, jornalistas e outros que tais. Mas também, Isabel, nem tudo podem ser rosas. Nós brindámos à tua!

Para quem quiser, aqui deixo meu último motivo de orgulho.


Parabéns Isabel!

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Segundo Primeiro de Maio

Tinha 2 anos e os meses deste Blog quando, às cavalitas do meu pai, vislumbrei pela primeira vez um mar de pessoas. Elas tinham muitas bandeiras encarnadas. Gritavam todas em conjunto, havia música e estava muito calor. Lembro-me ainda da minha mãe estar muito assustada e de se querer ir embora. Não sei exactamente onde é que estava, mas era em Lisboa e havia arcadas onde o meu pai ia de vez em quando fugir aos encontrões com a desculpa de apanhar um pouco de sombra.


É das minhas primeiras recordações.

A semana passada voltei a escutar as mesmas palavras de ordem. Também havia música e bandeiras vermelhas. Cheguei mesmo a trazer uma para casa, quem sabe com saudades das que não pude trazer à 33 anos atrás. O que não havia era calor. Estava frio e choveu o suficiente para voltarmos para casa a correr.

Este ano resolvemos contrariar os convites para um dia de praia, almoços em família ou inauguração de um campo de Paintball e decidimos participar nas comemorações do 1º de Maio. Calças de ganga coçadas, camisa aos quadrados e botas marcadas por anos de maus tratos, lá fomos nós para a cidade universitária ao som dos pífaros da CGTP.

A L. adora ir no seu carrinho, praticante de TT nos passeios de Lisboa, empurrada ora por mim ora pela mãe. Nesse dia dizia adeus às pessoas, cantava e ria como raramente o faz na presença de estranhos. Quando nos sentámos na relva ainda seca da cidade universitária, perguntou se estávamos num pic-nic? A A. (que, como nasceu na Bulgária, tem uma visão menos romântica destas coisas) disse-lhe que sim, enquanto eu e o PT convencíamos os camaradas do Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa a dispensar-nos umas fatias de pão para a morcela que acabáramos de comprar. Comemos sardinhas e bebemos vinho carrascão. Acabámos com as últimas bifanas e bebemos mais vinho.

Quando começou a chover resolvemos visitar o outro 1º de Maio. O dos ciganos que ocupam os parques de estacionamento que nos outros dias estão reservados para os doutores e futuros Dr.’s. Vendem roupas de qualidade, lençóis de marca e sapatos avulso. De vez em quando aparece um índio do Peru que vende cachimbos, calças e pulseiras para disfarçar as saudades das folhas da coca.

Sem comprar nada, não admirou que a chuva continuasse cada vez mais forte, cuspida pelo vento. Não havia alternativa. Marchemos para casa que de 1º de Maio já chega. Foi então que aconteceu…começaram as palavras de ordem

“Sócrates, escuta: Os trabalhadores estão em luta!”.

Começámos inevitavelmente por rir. Não só Sócrates não escutava como o relvado em frente ao jardim estava mais despido do que num Sábado de manhã, quando meia dúzia de menos jovens se juntam para jogar à bola fingindo que a polícia municipal não os vê.

Mas as piadas revolucionárias foram fraquejando à medida que iam chegando os tais. Aqueles. Vocês sabem! Vinham de todo o lado, em filas ordeiras, bandeiras vermelhas e palavras de ordem. Também havia música, bombos e cabeçudos. Marchavam na nossa direcção, indiferentes à chuva, ao vento e às nossas cada vez mais silenciosas piadas. Eram tantos que me lembrei subitamente do meu primeiro Primeiro de Maio, há 33 anos atrás. Parece que nunca mais acabavam… enfermeiros, professores, cantoneiros, agricultores, pescadores, mineiros, metalúrgicos…


Foi o meu segundo Primeiro de Maio.

Será que, com apenas 3 dias depois dos 3 anos, a L. se irá lembrar do pic-nic?

domingo, 29 de abril de 2007

Cinco !

Subitamente a nossa vida dá uma volta!

Minto. Não é assim tão subitamente.

A nossa espécie está programada para uma adaptação gradual às alterações estruturais. Mesmo quando são imprevistas. O Nuno Ferro (que saudades) chamava a este fenómeno de “familiaridade”. O que acontece é que, sem percebermos lá muito bem como, a nossa compreensão do mundo necessita de enquadrar todas as novas informações no quadro familiar pré-existente. É uma espécie de movimento globalizante da nossa consciência, que não gosta de deixar nada de fora, não gosta de não perceber o que quer que seja, detesta interrupções ou descontinuidades.

O melhor exemplo do movimento da familiaridade é a “surpresa”. Quando um dos nossos colegas de trabalho nos informa que se divorciou, ou quando encontramos uma osga dentro do nosso carro (mesmo no meio dos papéis que há anos jazem no lugar do morto), a nossa consciência petrifica! A mente reage instintivamente (logo in-cosncientemente), ordenando ao nosso corpo que fique alerta, enviando adrenalina para os músculos, eriçando pelos, etc. Mas bastam uns instantes para a familiaridade voltar a dominar o nosso estado. Trata-se de tentar enquadrar o momento da surpresa no contexto da vida. Da nossa vida. Assim, racionalizamos sobre os antecedentes do nosso colega (ele bebia muito, era um mulherengo, chegava sempre tarde, gastava o dinheiro todo…) e enquadramos a osga num leque de possibilidades racionais para a sua presença em tão inesperado local (foi da última vez que tive no campo, realmente deixei esta porta aberta muito tempo, escondeu-se nos papéis, etc.)

Sim, entrámos no domínio da fenomenologia.

Se atentarmos para momentos de grande alteração da nossa vida, verificamos que acabamos por os contextualizar do mesmo modo. Damos-lhe sentido. Encaixamo-los.

Assim foi o nascimento da L. A nossa consciência tem tempo de a enquadrar na rotina, explica-se a si mesma… convence-se. Mesmo depois do nascimento, há uma espécie de naturalidade e de familiaridade no primeiro colo, na primeira fralda, no primeiro acordar a meio da noite. Talvez também tenha algo de instintivo, não sei.

Deste modo, posso dizer que é com alguma naturalidade que ela chegou hoje aos 3 anos.

Volto a mentir! Trata-se antes de um misto de “familiaridade” com “surpresa”.

Quanto mais não seja porque sempre que lhe pergunto quantos anos ela vai fazer, a invariável resposta surge sem demora:

“Cinco!”

terça-feira, 17 de abril de 2007

IRS

Se há coisa que detesto é a burocracia.

Papéis, assinaturas, carimbos e formulários nunca se deram comigo, nem eu com eles. Talvez seja por isso que tenho de me organizar compulsivamente (pelo menos uma vez de três em três meses). Por isso e para conseguir distinguir a cor do tampo da mesa do meu escritório.

Esta semana teve de ser. Arrastei até à última, mas lá me encaminhei para o meio dos meus queridos e desordenados papéis, emaranhados com restos de envelopes de publicidade, contas de telefone, gás e água, facturas de gasolina, papéis de recados, apontamentos de telefone esquecidos em “pos-it’s” que já não colam, breves reflexões em folhas de rascunho, listas de compras para o “continente on-line”.

Em busca das declarações do banco, seguros e facturas da farmácia. Bom título de filme.

Tudo isto seria demasiado banal, não fora o facto de, eventualmente, todo o processo poder demorar consideravelmente menos tempo. É que após os momentos de absoluto terror que me obrigam a separar extractos de conta das actas das assembleias de condóminos extraordinárias, sou invadido por uma espécie de paz interior. Quando mergulho na separação dos papéis sinto-me assim mesmo. Mergulhado… no mais profundo e silencioso fundo do mar… silêncio… solidão… uma pequena e leve sensação de enjoo… eu comigo mesmo num ambiente hostil, mas que me acalma e que pareço dominar, ao mesmo tempo que me causa uma certa claustrofobia com a pressão do mar a tentar penetrar os meus tímpanos e a certeza de que não posso fugir dali assim sem mais.

Nesses momentos de mergulho, olho-me nos olhos e já não sou eu que conduzo. Sou eu conduzido pelos papéis. Um colorido faz-me lembrar o livro que comprei (“Inteligência Emocional”) enquanto esperava pelo Bártolo no Saldanha; dois negros apontam-me o teatro que fui ver com a M., oferta dos suíços que abrigámos em casa durante uma semana antes do Natal; um pequeno e grosso, riscado no dorso, levou-me para junto do restaurante cabo verdiano dos anos do Tintim (e depois, também, da M.); um cardume amarfanhado e riscado em tons de azul mostraram-me novamente os Serviços do Hike de Torres Vedras e os textos que criámos para a Drave.

Sem saber como, calmamente nadaram junto à areia branca que ainda cobria a mesa do escritório e já se espalhara pelo chão e pela sala, como se tivessem sido descobertos do seu esconderijo, dois pedaços brancos. Eram os do “Litlle Children” de Todd Field , última vez que me sentei nos bancos coçados do Quarteto.

De repente são duas da manhã e ainda não foi hoje que entreguei o IRS.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Pop Corns

Fruto do acaso, a família foi contemplada com bilhetes para o espectáculo “Disney on Ice-Princesas”.

Pouco apreciador de espectáculos infantis, a condição da paternidade foi-me levando a mudar de opinião. O facto de possuirmos uma responsabilidade acrescida perante um ser muito pequeno, leva-nos a sacrifícios inauditos. Começamos pelas noites sem dormir, passamos pelas não saídas, e acabamos por abdicar da parte do meio da torrada. Outro exemplo, pelo menos no meu caso, foi o passar a assistir a alguns espectáculos infantis. Surpreendentemente, confesso, gostei de praticamente todos eles, deixando os mesmos de figurar na categoria de sacrifícios.

Assim, não foi, de todo, angustiante saber da sorte que nos tinha calhado.

As 20:00h a que tinha início o espectáculo causava problemas, pois impedia-nos de jantar e prometia uma correria louca do Cacém até Lisboa. Cheguei a casa às 19:35h.

Carregar com a cria não foi mais difícil do que habitualmente, à excepção da garrafa de água que ficou esquecida e do bollycao que ela me roubou (lá se foi o meu jantar). Os brinquedos foram com ela, o casaco, o gorro, a fruta e as bolachas também.

Ao chegar ao Pavilhão Atlântico (20:10h), não me surpreenderam os vários progenitores que corriam apressados com crias às cavalitas e juvenis arrastados pelas mãos. Também aqueles carregavam a dose extra de agasalhos e de alimentos prontos a regurgitar.

“Que bom”, pensei. E é realmente bom quando não somos os únicos. Até os Xutos perceberam isso.

Entretanto comecei a ficar um pouco cansado de ver todas as princesas e príncipes encantados a desfilar perante os olhos de uma multidão de crianças eufóricas e pais convencidos, sob forma de atletas olímpicos frustrados ou com alguns anitos a mais… tudo ao som dos filmes que quase todos tivemos de ver dobrados em português. Nunca mais chega o intervalo…

Quando este chegou, revelou-se fatal o esquecimento da garrafa de água. Lá tive de me levantar, passar por todos os Joões Marias, Tomáses e Marianas que, eufóricos, sucumbiam às tentações dos souvenires estrategicamente dispostos às saídas do recinto. Os mais novos eram acompanhados pelas mães de fraldas de papel “Dodot” na mão. Depois de ter pago 1.50€ pela garrafinha de água, fui contagiado pelo rebuliço. Dirigi-me a uma das inúmeras bancas de pipocas e resolvi esperar pela minha vez. Reparei que só havia uns baldes de plástico (enfeitados com motivos da Disney) com um banal saco de pipocas lá dentro. Ao lado, estavam dispostas várias bolas de algodão doce (também elas fechadas num hermético saco de plástico), adornadas por uma coroa de princesa, dourada, que segurava as orelhas da Minie (ou do Mickey, caso o comprador fosse do sexo oposto). Á medida que me aproximava da banca, ia conseguindo escutar as vozes dos pobres rapazes e raparigas que, uniformizados de acordo com o ambiente princepesco, i.e., de farda dourada traçada ao peito com fita ainda mais dourada, e obrigados a usar na cabeça um ridículo chapéu de soldadinho de chumbo (uns) ou um boné de basebol azul identificando-os com o famoso criador dos desenhos animados (outros), se esforçavam por ouvir o que quer que seja no meio do eco provocado por centenas de vozinhas estridentes que se multiplicavam e sobrepunham umas às outras, fruto da ganância dos mais pequenos.

Finalmente chegou a minha vez e, espantado, oiço a voz do pobre rapaz: “Pop Corns?”
Obviamente respondo: “Sim, pipocas!”
“Sorry?”



Não podia ser… o gajo era americano! Os pobres rapazes e pobres raparigas, eram americanos!

E eu com pena deles… a imaginar quantos ainda teriam de ir estudar para a frequência do dia seguinte. E eu agradecido por existirem empresas de trabalho temporário que permitiam aos nossos jovens (universitários ou não) ganhar uns trocos para depois os gastarem em cervejas, roupas, cd’s ou ipods…

...

“Yes, pop corns, please! How much is it?”
“8 euros, please!”



“And the sweet cotton?”
“9”



Voltei para o recinto com a minha preciosa garrafinha de água e, novamente, cheguei à conclusão que somos o cú da América!

sexta-feira, 23 de março de 2007

Tribuna Numeru Quattor

A minha veia sofista latejava sem me doer. Foi inchando, qual variz azul arrocheada, pronta a explodir sob a forma de hemorragia interna.

Sem me dar conta fui sendo seduzido pelas tribunas dos grandes e dos crescidos. A tentação de modificar os que já foram modificados é muito forte. E dá um gozo bestial (de besta, animalesca).

A formação profissional já me levou a bancos de gestão de fortunas pessoais, a hospitais, seguradoras, empresas de contabilidade e à prisão do Linhó. Também já me levou à Roménia.

Com flipcharts, jogos pedagógicos, quadros brancos e câmaras portáteis (sim, porque eu evito ao máximo os tenebrosos powerpoints), subo para o púlpito da sala de formação, bonito mas não engravatado, e lanço-me aos adultos!

A sensação é maravilhosa! Costumo compará-la com o namoro. Há sedução, descobrir e deixar-se descobrir, viver vidas e deixar viver a nossa. As relações tornam-se fortes e a monotonia não existe. Há jantares de final de curso (muitos), lágrimas e copos. Há terapias de grupo. Há momentos fortes, muito fortes. Iguais, só nos escuteiros.

A sensação de mudar o mundo também surge, por vezes. Mas essa, creio, é a última tentação dos sofistas.