sábado, 10 de fevereiro de 2007

Multumesc


To all I, since then, carry with me.

It’s not easy to forget all that we’ve been trough.

It’s not easy to forget all you’ve done for me.

Andrei, Krisztina-Bella, Doina, Adela, Radu Pop, Radu Roman, Nicoleta, Ruxandra, Tereza, Zsuzsanna, Mediana and Alina…

For me Romania has your colors, your voices, your clothes, your smiles… and my memories.

Servus

Oh...

And the taste of Restaurantul Predeale

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Infinitamente acompanhados


Já estive em cidades cosmopolitas.

A primeira foi Londres. Lembro-me das cores das pessoas, das suas roupas extravagantes, dos sons que mesclavam de condensação o taciturno nevoeiro que nascia no Tamisa. Tudo era colorido. Até os polícias com os, agora habituais, coletes fluorescentes e chapéus pretos ou axadrezados. Tinha 19 anos e o facto de mergulhar nos sons do mundo fez-me tornar simultaneamente minúsculo e gigante. Nunca me hei-de esquecer da sensação de entrar num café e ouvir, reconhecíveis, 6 ou 7 línguas diferentes.

Depois estive em Basileia (para os imigrantes, Básel) na Suíça. Nesta a sensação foi mais duradoura. Estive 6 meses e o mergulho foi diferente. Passei a fazer parte do ecossistema. Em Londres tinha sido um banho rápido seguido de uma soneca na areia aquecido pelo sol da familiariedade. No restaurante onde eu trabalhava (num deles) estavam representadas 5 nações: Portugal, Tamil, França, Holanda e Jugoslávia. Foi antes da guerra. Agora seriam considerados Albaneses os dois empregados de mesa que me pediam os cafés, os martinis e as São Peligrino. No piso do hospital onde o meu primo encontrou o que em Portugal não havia, estavam representadas 40. Em todo o lado se ouvia tudo, se via de tudo e se podia comer de alguma coisa. Nunca fui tão livre nem tão prisioneiro. Os Suíços têm destas coisas.

A última foi Nova Iorque. Ainda com as torres gémeas a balançarem ao sabor dos ventos que, não fora os pêndulos instalados na sua estrutura, as tentavam derrubar, ela acolheu-nos com a sofreguidão de um vórtice indomado. A grande maçã seduz. A grande maçã conquista. A grande maçã é grande e alimenta. Tanto os que lá vivem como os que a visitam. A sensação de estar no centro do mundo é irreprimível e as analogias com uma Lisboa no ano de 1600 são uma constante. É lá que tudo se passa. As executivas de fato completo (blazer e saia, claro) a correrem de um lado para o outro de patins em linha ou de ténis, os coreanos que empurram cabides de roupa acabada de limpar a seco por entre os bafos fumegantes do “subway”, os australianos que tocam nas estações do mesmo, noutra escutamos “aleluiah”s de mini coros negros vestidos de azul celeste e branco. Tudo em 5 minutos. Ficámos lá 5 dias.

Turgu Mures não é cosmopolita. Turgu Mures é assim. Só assim. Tem Romenos, Ciganos e Húngaros. Alguns Alemães. Os que resolveram ficar depois da queda do muro. Depois da revolução. Da segunda revolução. E assim é há séculos e séculos.

Na praça principal podemos confirmar isso mesmo. É domingo e os sinos tocam. Cada um dirige-se para a sua igreja. Para a sua Catedral. Na mesma rua temos 3: a ortodoxa, a cristã e, ao fundo, quase sempre vazia, a do protestante Lutero.

Os ciganos rezam de outras maneiras.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Transilvânia


As relações humanas neste povo são quase impossíveis de compreender por parte de alguém que apenas tem um vizinho.

Há aldeias alemãs, igrejas católicas e catedrais ortodoxas espalhadas um pouco por toda a transilvânia. Também é frequente encontrar “palácios” ciganos onde a ostentação, magnificência e opulência das construções apenas é comparável com a sua inutilidade. Os Reis ciganos têm palácios para se ver. Não para viver.

A relação com a Hungria é bastante interessante. Responsável pela maior parte das invasões que ocorreram neste país, as suas marcas estão por todo o lado. Os restaurantes têm menus em romeno e em húngaro, há escolas e universidades húngaras, todos têm um pai, tio ou avô húngaro. Muitos romenos só falam húngaro e é normal assistir a conversas de café com tradutores de ocasião.

Na transilvânia fala-se muito húngaro e as lojas de “souvenires”, iguais em todo o lado, são dominadas por estes. Não gostam de romenos, não têm canecas nem cinzeiros com as tricolores bandeiras e as compras têm de ser feitas na sua língua.

O que os une verdadeiramente é o Drácula. Conde oriundo destes bosques gelados e sombrios, dos poucos onde ainda se podem ver ursos selvagens, ficou conhecido pelo facto de empalar os seus inimigos. O cinema norte-americano fez o resto. Hoje é uma atracção da transilvânia. Os últimos estudos apontam-no como o maior responsável pelo fluxo de turistas à região.

Assim, enquanto os bosques se vão deixando arrefecer pela neve, os húngaros da transilvânia continuam a pendurar os seus fios empalados à beira da estrada, enquanto se aquecem em fogueiras improvisadas com a madeira que os pinheiros lhes oferecem. Tal como na idade média, sustentam alhos, cebolas e, agora, todo o tipo de recordações que invocam o senhor da terra.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Cu carne de vacă nu se moare de foame


Rodeada por línguas eslavas, a Roménia é uma espécie de ilha onde as palavras se encostam às nossas sem pedir licença.

Pelos vistos os Romanos só estiveram cá cerca de 100 anos, até os Bárbaros, Tártaros e Vândalos os terem devolvido à península de origem. Pelos vistos não ficaram por cá. Limitaram-se a perseguir os Romanos.

Ainda hoje os Romenos aprendem que são os verdadeiros descendentes do Império Romano e que nunca foram conquistados, apenas subjugados. Isto apesar de só terem conseguido a sua independência há pouco mais de um século, de terem feito parte do Império Austro-Húngaro, de se terem envolvido nas duas últimas grandes guerras, de terem sofrido a influência Soviética até inícios da última década do século passado e de agora pertencerem à União Europeia.

Tal como o latim teimou em resistir ao húngaro, sérvio, ucraniano e alemão, assim também as fábricas do tempo do comunismo teimam em resistir às demolições dos novos arquitectos do capitalismo.

Os rios sonolentos, quase gelados, ainda recebem os seus despojos até que alguma associação ambientalista os acorde junto dos novos e modernos tribunais europeus.

Os formulários serão, certamente, preenchidos em Inglês.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Dacia


Apesar de colorido, para mim o cinema continua a ser dos antigos. Quero com isto dizer que as cores estão desvanecidas, se é que realmente existem. Acordo tão cedo e vejo tudo tão branco e volto para casa tão tarde e vejo tudo tão negro que parece que a cor fugiu para outro lugar qualquer…

Ainda assim consigo compensar a minha relação com este País através das conversas e dos cheiros que troco com as pessoas de cá. E digo isto porque o tacto é algo que me está proibido e porque os sabores são mascarados pelo cansaço.

A humildade do povo é inquietante e o desejo de abertura a novos horizontes também. Não fosse a neve e julgaria estar em Portugal. Talvez seja devido ao facto de sermos ambos latinos, ciganos e pobres.

Comprados os direitos de fabricar o Renault 12, foi fundada a Dacia. Há-os de todos os tipos, feitios e cores na medida em que as consigo distinguir. Ora sob a neve, ofuscados pela lama ou cobertos de noite, estão em todo o lado. São resistentes, fáceis de arranjar e baratos. Ultimamente foram comercializados novos modelos, com ABS, Airbags, Injecção electrónica e ar condicionado. Estes já não os consigo distinguir. Os motores continuam a ser franceses, mas isso não interessa para os romenos. O que realmente importa é que são nacionais, é que são deles, é que são Dacia.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Turgu Mures


É este o nome da cidade onde me encontro neste momento.

Devem estar uns 5º negativos, mas para quarta prevêem-se 15º abaixo do limite inventado pelos árabes.

Amanhã é o grande dia.

A Roménia não é um País tão pobre quanto poderíamos imaginar. Em muitos casos parece-se com as cidades alemãs. O parque automóvel é, esse sim, um pouco mais velho do que o normal. As pessoas são simpáticas e calorosas. O inglês é uma aflição, a cerveja é sempre ao meio litro e a comida a cerca de metade do preço.

Até agora o colorido da bandeira romena esteve sempre revestido de branco.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Realidade Virtual

Agora que ando a ler Derrick de Kerckhove (A Pele da Cultura), estou cada vez mais sensível à problemática das novas tecnologias, principalmente a questão da Realidade Virtual.

Até hoje sempre considerei o ser humano (o homem) como um produtor de máscaras. De facto, cada um de nós produz, utiliza, adequa e recicla máscaras consoante as situações e os contextos que tem de enfrentar. Paradigma do que estou a defender é a máscara que utilizamos quando nos deparamos com a vizinha do lado logo pela manhã. “Bom Dia, como está?”, dizemos nós de sorriso aberto. Nos transportes públicos esta é substituída pelas sobrancelhas carregadas e rosto fechado. Fica completa com o “Destak” na mão. Não irei falar das máscaras utilizadas nos locais de trabalho ou em conversas de engate. Parecem-me óbvias de mais.

Derrick de Keckhove dá o exemplo de um topógrafo canadiano (Michael Smart) que, trabalhando para o governo no estado de Ontário, tentava fazer o levantamento de uma região inóspita juntamente com um guia da tribo Algonquin. Reparando que estava perdido, comenta para o seu guia: “Estamos perdidos!”, ao que este responde com ar de espanto: “Não, senhor. O terreno é que está perdido!”

Este exemplo vem colocar em evidência a noção espacio-temporal que caracteriza a nossa cultura ocidental. Com efeito, tendemos a compreender o mundo como sendo estável e estático, e nós, seres humanos, deambulamos por ele. Tal como um actor se movimenta pelo palco. Pelo contrário, outras culturas tendem a considerar o mundo como um espaço fluído e liquefeito, onde o único ponto fixo e imutável é o próprio ser humano. O homem empurra o chão com os seus próprios pés. Quando corre, simplesmente empurra o chão com mais força.

Creio que Derrick de Kerckhove tem alguma razão no que diz.

Enquanto preparo as minhas aulas, programo, efectivamente, o meu mundo. Mergulho no mundo da filosofia. Estou aí, na filosofia (como diria Heidegger). Á noite, e com maior ou menor esforço, e isto porque a mudança de programa requer alguma habituação, reintroduzo o programa familiar. As preocupações são outras, os problemas, as atitudes, as máscaras. No dia seguinte, senão mesmo antes de dormir, instalo o programa do curso de formação que irei animar no dia seguinte pelas 9 da manhã.

Creio que o factor que descriminará o sucesso entre os homens, neste mundo competitivo e global em que vivemos, será a capacidade de habituação, programação e instalação do maior número de programas possível. De preferência simultaneamente, qual processador informático Corel Duo 2.

Estou agora a fazer o download da Roménia.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Tribuna Tertiaria

E foi então que o Xico me perguntou: “Tens o CAP?”

Tinha-lhe dado boleia, vindos de um Conselho Regional ou de qualquer coisa assim parecida, igualmente importante. O Xico é daqueles que não tem carta porque não quer. Figuras raras e, por isso mesmo, motivo de curiosidade. Não significa que não tenham razão. Apenas estão contra a corrente. Contra a “cultura dominante”. Desde que retomei a minha, agora predilecta, ocupação dos transportes públicos, venho a questionar-me sobre o que tenho perdido nestes últimos anos. Consequentemente, a curiosidade, aos poucos, transforma-se em admiração.

Eu respondi que sim. Nessa altura ele ainda era o Secretário dos Recursos Adultos do Núcleo Serra da Lua, e estava a liderar cursos de formação de dirigentes há um ou dois anos.

“Se calhar podias fazer parte da Equipa de formação do Núcleo. O que é que achas?”

Eu achei que sim.

Desde essa altura que me envolvo (por breves períodos, é certo) na formação de futuros dirigentes que, posteriormente, irão formar jovens.

O prazer aumentou consideravelmente, comparado com o sentido na transmissão de conhecimentos às outras audiências. Desta vez tratava-se de adultos e, realmente, com adultos é diferente.

A manipulação é mais honesta… mais sincera.

E, claro, há a contestação. Dá luta!

Apesar de ser o formador típico que não se gosta de comprometer (chega, dá a sua formação e ‘baza que se faz tarde’), o que é certo é que me dava um gozo que ainda não tinha experimentado. Estaria a descobrir o meu caminho?

Uma vez mais a tribuna, desta vez metamorfoseada em salas frias, refeições partilhadas e fardas esbarrigadas, me surge como um desígnio ao qual, parece, não consigo fugir.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Fogo de Artifício

“Já está!”

Esta é a frase que mais escuto nos últimos tempos, vinda dos labirintos esquecidos e incompreendidos do meu inconsciente. Pelo menos assim o diria Freud.

Tentei compreender o incompreensível, uma vez que não é possível lembrar o esquecido. Pelo menos sem ajuda, assim o diria Freud.

Acho que a frase nasceu num sentimento muito forte que me acompanha desde o momento que terminei um ciclo de trabalho verdadeiramente mortífero. Ainda não acabei tudo, mas agora tenho autorização para colocar a preguiça à frente. A consciência é uma negociadora implacável, e quase nunca o tédio consegue ganhar à culpa.

Conseguiste superar mais esta fase da tua vida. O trabalho moeu, mas não matou!

“Já está!”

Logo de seguida foi necessário obedecer ao imperativo do Natal. As boas disposições do costume, prendas, embrulhos, broas e coscurões. Viagens para casa dos sogros, visitas aos pais, jantares com amigos e mais boas disposições. Ah! E mais prendas, e visitas aos locais onde costumo trabalhar, e telefonemas e mensagens e… padrinhos e afilhados!

“Já está!”

Arrumar as prendas, a casa dos sogros, a nossa casa, agradecer a lembrança e… preparativos para o ano novo. Negociar com amigos e família sobre os locais, pesquisas na net sobre os quais, os mais perto e os mais baratos. Compras de última hora, filas, reclamações, multibancos, viagens a casa dos sogros, dos papás, telefonemas e mensagens, desejos de felicidade e de boas entradas. Mais boas disposições. Correrias em Lisboa, fugas ao trânsito, discussões e empurrões. Champanhe em chuvisco, lixo e mijo.

“Já está!”

Não me admira que esta quadra acabe em fogo de artifício. O que me admira é a conotação que este continua a manter com o orgasmo.